sábado, 23 de junho de 2007

Habilidades Essenciais e Competentes Essenciais I

A importância para uma empresa promover o DASH (Desenvolvimento do Amadurecimento dos Sistemas Humanos)[i] se deve em grande parte à necessidade de se manter uma organização negocial sustentável e permanente dentro dessa empresa. Podemos perceber que as empresas que estão conseguindo viver, sobreviver e permanecer viva, na Terceira Modernidade (que compreende a Era Infoeconômica ou da Economia do Conhecimento) são empresas que apresentam características de organização amadurecida, flexível, criativa e proativa. Não confundir este amadurecimento com o ciclo de vida das organizações de acordo com o que propõe I. Adizes[ii]. Neste livro o ciclo de vida inclui um amadurecimento relativo à vida orgânica, ao tempo, à competência empreendedorial dos diretivos e à sua capacidade de dirigir a empresa. Aqui estou tratando de maturidade mental e emocional e não da idade biológica da pessoa ou da empresa, do produto, da estrutura, da cultura organizacional. O ciclo de vida naquele caso trata da organização como se fosse igual a um organismo vivo e passasse pelas quatro ou cinco etapas de existência que vai do nascimento à morte. Aqui estou me referindo à maturidade pessoal, profissional e operacional da pessoa, não importa a sua idade biológica. Portanto, não se trata de envelhecimento, mas do fortalecimento da capacidade mental do indivíduo e envolve uma utilização eficaz de suas Habilidades Essenciais, sobretudo das Habilidades Emocionais. Como as pessoas, também são possíveis existirem organizações emocionalmente maduras e isto se torna possível quando a liderança emocional da empresa é forte e madura o suficiente para que os seus líderes estejam o tempo todo interessados em desenvolver pessoas e não apenas em treinar pessoas. Aqui está uma diferença entre Inteligência Racional e Inteligência Emocional.

Vou falar um pouco agora sobre as Habilidades Essenciais e do indivíduo como um ser Competente Essencial para as empresas, considerando as exigências atualmente das organizações do conhecimento, mas considero que estas discussões também são válidas para todas as organizações públicas e privadas. Os CE (Competentes Essenciais) são, segundo Leif Edvinsson[iii], pessoas talentosas que possuem uma grande responsabilidade e bastante flexibilidade de atuação dentro das organizações. Segundo os meus critérios de apreciação do desempenho dos indivíduos e das organizações, o CE está diretamente dependente da intensidade com que promove o desenvolvimento (que aqui se confunde também com o auto-conhecimento) e faz a manutenção das suas Habilidades Essenciais (HE). Embora aqui entre nós (especialmente no Norte e Nordeste do Brasil) as relações de poder ainda estejam primitivamente atreladas à posse de terras e ao acúmulo de dinheiro como riqueza – sendo estes alguns dos entraves ao avanço do industrialismo por qualquer das vias discutidas pelos economistas, em nossas regiões – é importante que já se comece a discutir dentro da academia e no ambiente da gestão dos sistemas humanos das empresas o deslocamento deste paradigma que está cedendo espaço nos países desenvolvidos e pós-industriais para o próximo paradigma de sustentação do poder que é o Conhecimento.

Um dos pontos interessantes que faz com que os atuais poderosos não aceitem, ainda, a nova economia, está no fato de que ela possui uma estrutura socioeconômica, sociopolítica e sociocultural não ideologizada; ou seja, o fato de que, na Economia do Conhecimento, a influência das ideologias (e teologias) perde fôlego, tendo em vista que a disseminação rápida e em volume significativo do conhecimento, tende a gerar um pensamento coletivo muito forte, flexível, avançado, responsável, não deixando margem para que os poderosos tradicionais criem com seus discursos credos dogmatizadores em qualquer destas direções. Este ponto forte da Infoeconomia, no entanto, enfrenta um ponto fraco muito interessante que necessitará de tempo, paciência e atitude para superar. Trata-se do surgimento de uma massa obsoleta de pessoas que não conhecem, não sabem lidar com a informação e muito menos com o fluxo volumoso que no momento confunde a todos, sobretudo pela facilidade de disponibilidade através das redes de informação como a Internet, levando essa massa a ter medo de se aproximar dessa nova forma de poder como ocorreu no passado com a forma que está sendo substituída pela Infoeconomia.

Diante de situação crítica como esta (ou à sombra dessa situação) é que surgem alguns indivíduos em número muito pequeno que, na linguagem de Edvinsson e outros estudiosos da Economia do Conhecimento, são chamados de Competentes Essenciais, como se fossem pequenos ilhéus ou micro Think Tank dentro das empresas. Para identificá-los, tomando por base o que Edvinsson e outros autores discutem no momento, é necessário seguir pelos caminhos que levam ao labirinto do conhecimento dentro das organizações e, neste foco, começa a perder valor no mercado de trabalho atual os diplomas, que foram muito importantes no paradigma anterior como marco norteador para se conseguir uma boa colocação. Deste modo não mais serão considerados pontos fortes nos ambientes de seleção e recrutamento títulos e diplomas da USP, FGV, Campinas, UFRJ e outras porque as organizações da Economia do Conhecimento não mais irão se orientar a partir desses títulos, mas a partir das competências e habilidades essenciais que um indivíduo vai levar consigo para dentro da empresa e deverão trazer dessas organizações do conhecimento.

Os CE são em número bem reduzido dentro de um corpo de colaboradores em uma empresa e, muitas vezes, por serem tão poucos geralmente os empresários quase não conseguem identificar quem são os seus CE, sobretudo se for um empresário reativo ou ativo (segundo a tipologia que estou usando nos cursos de empreendedorismo), por algumas características que não são comuns nos funcionários rotineiros ou meramente especialistas. Alguns traços fortes dos CE são a sua maturidade emocional, segundo alguns autores e nisto eu concordo, sobretudo porque o trabalho que desenvolvo no ambiente de negócio SHENG[iv] procura justamente avançar para o desenvolvimento dos sistemas humanos considerando como um dos pontos fortes as HE e a capacidade de assumir responsabilidades que ultrapassa a grande massa de colaboradores. Outra qualidade fundamental dos CE é a capacidade para interpretar rapidamente, em situações críticas, fatos e fenômenos que excedem a capacidade da grande população de colaboradores de uma empresa. Como estas qualidades não dependem exclusivamente de diplomas isto está gerando uma grande mutação no processo de seleção e recrutamento de pessoal nas organizações de conhecimento. Discutiremos mais na próxima semana. Pão, Paz e Liberdade.
[i] DASH se refere a um dos produtos do Ambiente de Negócios SHENG.
[ii] ADIZES, I. Os Ciclos de Vida das Organizações. São Paulo: Pioneira, 2002.
[iii] EDVINSSON, L. Longitude Corporativa, Navegando pela Economia do Conhecimento. São Paulo: M.Books, 2003.
[iv] SHENG Sistemas Humanos, Estratégias Negociais e Gerenciais. Organização voltada para o Desenvolvimento Humano e ambientes empresariais para Administração da Economia do Conhecimento.

domingo, 17 de junho de 2007

O OBSOLETISMO HUMANO II

Falar sobre educação tecendo críticas às metodologias pedagógicas atuais é correr o risco de ser tachado de obsoleto ou desvairado ou mesmo de desfocalizado porque se trata de um assunto perigoso quando se está vivendo em uma sociedade minimamente democrática. Mas, ainda existem pensadores corajosos que insistem em tratar deste assunto a despeito do descaso daqueles que se locupletam com os recursos públicos sem ser necessário desenvolver qualquer tipo de produto intelectual, seja escrever artigos, livros, desenvolver projetos de pesquisa e outras (bobagens) que nós, professores e pensadores, fazemos no nosso labor universitário ou mesmo escolar e da pobre maioria que desconhece o que seja educação pelo simples fato de que fora excluída dela ou de forma proposital por aqueles que estão passeando pelos poderes a séculos e fazendo uso da riqueza da nação em benefício próprio ou para seus descendentes, ou por mero desconhecimento como algo deveras importante para as duas vidas. Sabemos que somos minoria, mas não vamos desistir de pensar no futuro a partir de uma idéia de educação no presente. Em particular, faço isto por determinação.

Tenho lido muitos artigos que tratam do descalabro da educação nacional, para usar aqui uma expressão do saudoso Darcy Ribeiro, em especial quando estão apreciando os resultados de testes, provas e avaliações divulgados nos últimos meses sobre o desempenho de estudantes brasileiros e dos seus cursos. Tenho sido otimista em relação à Educação e, por isso, não para de discutir este tema e aborda-lo nos Blog, nos artigos que faço, nas discussões em sala de aula e muito discuto nas reuniões com colegas. É bem perceptível que existe uma preocupação de alguns grupos de pensadores neste país com a Educação, mas apenas preocupar-se não é suficiente porque este é um tema mais do que falado e discutido nos discursos políticos, em especial nas épocas de eleições. Tivemos até um candidato a presidente que tinha como principal lema de campanha a Educação. Ao lado da preocupação vamos encontrar os projetos elaborados pelos governos voltados para promover a Educação e, como sempre, não passam de projetos encadernados para atender a alguma campanha publicitária de marketing político no sentido de angariar simpatizantes ou manter os que já assumiram este papel. Neste rol de projetos surge, agora, mais um, o projeto “Todos pela Educação”, para o qual estão sendo destinados bilhões de reais, os quais, provavelmente, nunca chegarão a ser aplicados efetivamente em educação, como já é comum neste país.

Vem à mente, então, a seguinte pergunta: por que se gasta tanto dinheiro com educação no Brasil e o país continua sub-educado, com o analfabetismo se disseminando através de outras modalidades que não apenas a de saber ler e escrever? Por que o jovem brasileiro não gosta de estudar, de ir à escola, de ler e no Brasil se lê menos que na Argentina e no Chile que têm populações muito menores que a nossa? Quais os pontos fracos do Processo Educacional Brasileiro (PEB)? Será que se falha apenas por falta de qualidade ou será que não se está usando efetivamente ferramentas de qualidade que sejam adequadas para um processo que já amarga uma doença de improdutividade e insuficiência intelectual há dezenas e dezenas de anos? Por que países como Coréia do Sul, Irlanda, China e outros fazem projetos educacionais com prazos de 20 a 30 anos e conseguem obter resultados positivos ao longo desses anos projetados e nossos projetos e seus resultados são ruins? Não posso ser pessimista com a Educação quando vejo resultados como o da Irlanda (conforme foi mostrado no programa “Mundo S.A.” que a rede Globo leva ao ar às terças-feiras às 06h45min da manhã) que conseguiu se transformar em uma realidade educacional e econômica em quarenta anos graças a investimentos em educação.

Três fatores podem ser considerados críticos para a situação que o país vem enfrentando, desde há muito tempo, desde o início da república. O primeiro é a sub-administração, o segundo a sub-política ou sub-governança e o terceiro é a sub-educação, o qual pode ser uma das raízes que geraram a organização que veio a ser denominada de Brasil como país. Não estou ressaltando aqui a economia como um subfator porque ela é resultante operacional destes três; se fosse considerado um fator de dificuldade para que não pudéssemos alcançar o desenvolvimento sustentável seria incluída com os três citados. Neste caso, o Brasil é um país economicamente rico; mas, sendo sub-administrado, sub-politizado ou sub-governado e sub-educado não conseguirá chegar a nenhum lugar, mesmo que haja ventos positivos, porque só nos preparamos até agora para a corrupção e a economia sozinha nada poderá fazer.

Embora seja otimista em relação à Educação como fator de transformação e desenvolvimento de Sistemas Humanos, sou um tanto cético quanto ao projeto “Todos pela Educação”, em especial quando vejo os resultados das provas do ENEM e do ENADE e outros testes e exames feitos por nossos estudantes e nos quais são ou reprovados ou têm conceito insuficiente. Junte-se a estes números o uso da máquina pública pelos empresários e lobistas que, cada vez mais, se fortalecem com a “limpeza” dos cofres através dos poderosos incrustados nos palácios governamentais e nas assembléias, secretarias e ministérios do país.

Parece que me torno repetitivo e às vezes sinto que estou andando em círculo quando fico tratando deste assunto aqui. Mas uma coisa realmente acontece com a população brasileira como resultado do mau uso destes três fatores assinalados aqui: as pessoas estão cada vez mais se tornando obsoletas e parecem satisfeita (em parte) com os programas do tipo “Pão e Celular” que os políticos descobriram ser mais eficientes que os programas “Pão e Circo” da onda maquiavélica. Afinal, estamos no século 21, iniciando a Era do Conhecimento, e quase não precisamos mais de Maquiavel quando temos nossos Marcola, Beira-mar, e outros líderes que sabem usar as tecnologias disponíveis para promover vídeo-conferência com seus comandados de dentro da prisão-hotel e, assim, realizar de forma bastante concreta a caminhada para o Obsoletismo Humano.

Por que, então, gastar dinheiro com educação, com livros, se o povo não sabe usar estes instrumentos e preferem usar outros menos complexos e que exigem menos Habilidades Essenciais (Ver os ensaios anteriores no Blog: http://www.jovinomoreira.zip.net/) para colocar em ação? (Uma arma, mesmo tecnicamente sofisticada, é mais fácil de lidar do que um livro por mais simples que seja o seu conteúdo. A arma requer APENAS treinamento, instrução, que se conseguem realizar em algumas horas ou alguns dias, enquanto o livro requer EDUCAÇÃO e aprendizagem que só se conseguem realizar em quinze, vinte anos de trabalho intensivo e isto é trabalho de Administrador). O que se vê, então, é o uso do dinheiro que se destina a instrumentalização do Processo Educacional Brasileiro em benefício próprio, enviado para os paraísos fiscais através de projetos bem mais maldosos que os dos traficantes. Para mim não existe diferença entre lavar dinheiro, sobrefaturar obras, extrair nota fiscal fria, fazer lobby para construção civil e outros projetos sociais, econômicos, tecnológicos, ou montar bingos, ONGs e empresas fantasmas, e o “trabalho” que os líderes do tráfico realiza na guerra civil que assola o país. Políticos e traficantes, boleiros e lobbistas todos estão no mesmo pé de igualdade quando se trata de promover o Obsoletismo Humano no país. Concluo usando uma frase muito bem elaborada por Proudhon: “Faço guerra a idéias antiquadas, não a homens antiquados”[1]. Precisamos de uma Nova Educação e de uma Nova Esperança. Pão, Paz e Liberdade.
[1] PROUDHON, P-J. A Nova Sociedade. Porto: Edição Rés, s.d.

quarta-feira, 13 de junho de 2007

ENADE, QUALIDADE DA EDUCAÇÃO E O FUTURO DOS NEGÓCIOS

Fiquei alegre quando recebi uma mensagem de meu colega Wesley Piau reportando o resultado do ENADE e a colocação (avaliação) do curso de Administração da UESB. Mas a alegria sempre dura pouco. Por quê? Bem, não importa, agora, pesquisar sobre esta pergunta intrigante, mas o que interessa mesmo é que, após apreciar o relatório enviado pelo Piau, comecei a me ligar no ENADE e me vieram à lembrança as críticas (e as contribuições para um aperfeiçoamento futuro) que fiz ao PROVÃO, as quais foram depois importadas para o livro que escrevi sobre Avaliação Profissional[1]. Eu e Piau temos alguns pontos em comum: um deles é a crítica que fazemos a esses tipos de avaliação, ressalvados alguns pontos positivos mínimos que possam sobressair depois dos resultados e serem aproveitados para alguma orientação em relação ao futuro de outros profissionais. O curioso nesta história é que nada mudou senão apenas a forma de se apoderar das idéias já firmadas (no caso o PROVÃO), colocando novos títulos, novas denominações, o que vem comprovar aquilo que já falei em outros artigos, relativo à falta de criatividade que impera neste país em todas as suas instâncias e instituições. Vale salientar que quem reforma não cria, não transforma.
Estamos construindo um país para o passado, o passado não se cria (ou existe criatividade para o passado?) e ainda proclamam por aí o refrão: Brasil país do futuro!, como se estivessem com isto estimulando, motivando as pessoas a buscarem os caminhos que possam levar ao futuro. As ditaduras, bem como as democracias mínimas (como a que temos por aqui e em toda a América Latina) não promovem programas de mudança e criatividade para as populações. Tudo bem! Para o nível de processo educacional que existe por aí, o nosso curso de Administração realmente pode ser considerado muito bom senão uma excelência que se coloca entre os quarenta ou mais do país que atenderam a ou preencheram os requisitos do ENADE. Venceram os estudantes, venceram os professores. Venceu a empresa (no caso a UESB). Porém, o que me preocupa nesses tipos de competição não é tanto os ganhadores, mas, os perdedores que, neste caso, é um número significativo no total de cursos de Administração do Brasil.
O que se pode fazer ou o que se está fazendo para que, ao invés de ganhadores e perdedores tenhamos profissionais proativos contribuindo para a melhoria contínua da qualidade de nossos negócios e capazes de preparar as bases para que possamos ter um futuro que não aquele pleiteado pelo Marcola e congêneres (ver artigo anterior)? Produzir, preparar, treinar profissionais para o passado não é difícil e não se requer grande investimento financeiro e estrutural, em particular no Brasil que investe uma soma significativa de recursos para que se faça agora o que deveria ter sido feito ontem e que só valeria ontem, sem qualquer interesse ou dedicação para fazer aquilo que interessa hoje e seja capaz de proporcionar base e estrutura ao amanhã.
Que lições podemos tirar desses números, mesmo que não concordemos com a metodologia e o processo de avaliação?, uma vez que se está avaliando aquilo que foi decorado ao longo de anos de ensino e não aquilo que poderia ser aprendido e criado nesse mesmo tempo, em especial porque não temos o hábito, ainda, de avaliar competências essenciais, ou porque não sabemos como elaborar uma avaliação, ou porque não estamos muito interessados em conhecer o que foi realmente aprendido pelos profissionais ou, ainda, porque preferimos permanecer convivendo com as regras do passado, uma vez que estamos em nossa zona de conforto e não queremos mexer com o novo, porque o novo além de incomodar exige uma postura de mudança, de determinação e de transformação e... muito trabalho, muita dinâmica, a qual não é bem do feitio de nossos projetos educacionais.
“A Educação pode ampliar os seus lucros e resultados empresariais”. Esta era a frase que imaginava que iria fazer impacto em políticos, empresários, empreendedores e nos próprios profissionais no Século XXI, no Brasil. Só houve um impacto, o qual se deveu à falsa interpretação que chegou a convencer os próprios dirigentes das instituições da política educacional do país, que foi a de que “Educação”, aqui, representava mais faculdades abertas, mais cursos superiores abertos para serem vendidos aos estudantes (e seus familiares) ansiosos por um diploma, por um título de nível superior para melhorarem os seus currículos, enquanto que na minha interpretação representava elevação das competências profissionais, das maturidades pessoais, a formação de melhores currículos, melhores professores e melhores desempenhos para elevar a qualificação do país (e não somente de uns poucos indivíduos) em termos de produção científica, de pesquisa e desenvolvimento de produtos, de patenteamento de idéias, criações e inovações. Assim “Educação” não foi considerada bem uma qualificação, mas um produto que muitos investidores, que fugiam da fragilidade ou da incerteza das bolsas, procuraram vender. E o mais grave é que eles conseguiram e ainda conseguem convencer às comissões de verificação e avaliação de projetos pedagógicos para aprovação e instalação de cursos por esse mundo a fora. Um exemplo de erística[2] que mostra bem como esta proposição se confirma foi o erro de interpretação da Resolução 02/93 (utilizado pelos mantenedores) que convenceu o MEC a permitir que se instalassem cursos de Administração com Habilitações abrindo, assim, as portas para os “investidores de educação” criarem algumas centenas de faculdades, todas começando com um curso de Administração (?). Apenas para citar um dos itens interessantes do ENADE: vou me fixar naquele que mostra que muitos cursos são tão ruins que poderiam ser fechados sem fazer qualquer falta ao desenvolvimento humano do país. Muitos são ruins até nos projetos, os quais os avalistas de projetos educacionais pouco capacitados aprovam sem quase nenhuma ressalva. Isto vem mostrar que a péssima qualidade da educação nacional tem suas raízes na educação pré-escolar e na falta de uma Administração Pública mais efetiva. Mais uma vez insisto: avaliar os profissionais depois de concluídos os cursos acrescenta pouco resultado para a melhoria contínua da qualidade de educação superior. Precisamos de um projeto para a Holonqualidade Educacional (seria bom que professores e diretores de faculdades lessem algumas partes do meu livro). Ao invés de gastar tanto dinheiro com um programa (indefinido!) de aquisição de laptop para estudantes o governo poderia estar investindo em um projeto de formação e preparação de professores que focalizasse uma nova metodologia de educação técnica e superior para substituir a metodologia obsoleta que está contribuindo mais para o obsoletismo humano que para a formação de pessoas realmente engajadas e preparadas para o futuro.
[1] SILVA, J. M. A avaliação profissional e o processo educacional brasileiro: reflexões sobre a qualidade integral na educação. Vitória da Conquista: UESB, 2004.

[2] Erística é a arte de convencer alguém (um adversário, um debatedor) de que uma proposição falsa representa uma verdade a ser aceita sem mais discussão ou debate interpretativo (hermenêutico). Em outro momento poderei falar um pouco mais sobre erística.

domingo, 10 de junho de 2007

O Obsoletismo Humano

Continuo me perguntando aonde chegaremos no futuro se não conseguimos nem mesmo construir um presente digno de um ser humano para viver dentro da natureza. O presente do futuro no Brasil parece apresentar um quadro humano frágil, improdutivo, ingênuo, imaturo (como um velho de 500 anos com a mente de 10 anos ou menos), pessimista, improdutivo, sem criatividade, desinteressado, sem objetivo claro ou bem definido, sem visão crítica do futuro, preocupado em obter as coisas de forma fácil não importa por qual meio: como pedinte, como corrupto, como trambiqueiro ou outros meios “criados” para este fim... é um quadro feio e pode-se dizer um tanto aterrador para se definir um país. Mas, mesmo com todos estes pontos negativos que atrasam nossa realização como povo, como nação, muita coisa boa pode ser filtrada dessa lama, desse quadro que se assemelha ao Inferno de Dante. E aqui chego a um ponto que me chamou, ainda mais, a atenção. Trata-se de uma mensagem em pps que recebi já faz alguns dias que tinha como título: Estamos no Inferno e cujo conteúdo tratava de uma (talvez suposta) entrevista que o “Sr. Marcola” concedeu ao jornal O Globo. Nessa entrevista, entre outras coisas, o citado entrevistado revela um grau de discernimento sobre as coisas do mundo e do seu entorno de dar inveja a muitos universitários de hoje (e de ontem também). Ele se diz um grande leitor e, inclusive, que já leu mais livros do que algumas das pessoas que estão nos poderes em vários níveis ou escalões de mando, segundo informações de outras reportagens.
Sem pretender jogar lenha na fogueira vou colocar aqui para que façamos algumas reflexões sem qualquer conotação política partidária, mas apenas no sentido daquilo que venho discutindo com meus amigos sobre o Desenvolvimento e Amadurecimento dos Sistemas Humanos (DASH) em minhas aulas, meus trabalhos consultivos, meus artigos e papers, as seguintes citações da referida entrevista. Em uma de suas falas do “Sr. Marcola” ao reporte, a qual mais me chamou a atenção, ele dizia o seguinte: Estamos diante de uma “Pós-Miséria”. Isso. A “Pós-Miséria” gera uma nova cultura assassina, ajudada pela tecnologia, satélites, celulares, internet, armas modernas. É a merda com chips, com megabytes. Meus comandados são uma “mutação da Espécie Social”, são fungos de um grande erro sujo. E mais adiante, quando o reporte pergunta: “Mas, o que devemos fazer?”, ele responde com cinismo, ironia e uma ênfase de poder: Vou dar um toque, mesmo contra mim. Tem deputado, senador, tem generais, tem até um ex-presidente do Paraguai nas paradas de cocaína e armas. Mas, quem vai fazer isto? O Exército? Com que grana? Eles não têm dinheiro nem para o rancho dos recrutas... O país está quebrado! Sustentando um Estado morto a juros de 20% ao ano e o LULA ainda aumenta os gastos públicos “empregando 40 mil picaretas”. Você acha que o Exército vai lutar contra o P.C.C. ou o C.V.? Estou lendo “Clausewitz”, “sobre a guerra”...”.
Fica, então, uma questão para que nós, os que lidamos com a educação, desenvolva algumas reflexões voltadas para o futuro: Quanto nós contribuímos ou estamos contribuindo para reduzir ou, mesmo, evitar o obsoletismo humano? Por acaso os Marcolas da vida são ou não são frutos de nossa obsoleta metodologia de educação e, também, do obsoletismo de nossas instituições o qual é defendido com unhas e dentes pelos doutores das leis, da justiça, da política e da polícia? Como promover o Desenvolvimento do Amadurecimento dos Sistemas Humanos, tão importante para que possamos dar um salto para o futuro em qualidade de produtos, em criatividade, em inovação, em conhecimento, em saúde, em conservação e sustentabilidade do meio ambiente, quando estamos o tempo todo sendo minimizados diante das grandes mediocridades que fazem manchetes nas mídias como a absurda diferença entre o maior salário pago aos políticos (excluo aqui os executivos das multinacionais e até das nacionais porque eles, pelo menos, estão suando a cabeça e a camisa para trazer ou fazer divisas para o país) e o menor salário pago a uma empregada doméstica? Isto para não falar que mesmo no caso de professores ainda fica um grande hiato entre o salário deles e os dos senhores políticos da capital de Pindorama. Assim fica difícil contribuir para a redução do obsoletismo humano de que já tratei em outra mensagem.
Como Marcola, nós também lemos, estudamos e usamos como referência bibliográfica em nossos trabalhos sobre estratégia e prospectiva textos como o de Carl von Clausewitz e, mesmo assim, não conseguimos formar cidadãos proativos, que não fogem da incerteza, que não se distanciam do poder, que têm coragem de ousar e ser criativos, porque ser criativo requer que sejamos anarquistas, visto que só pode criar alguma coisa quando se está livre e/ou na ilegalidade e isto o Marcola sabe fazer muito bem. Apenas a diferença entre o meu ser criativo e o ser criativo do Marcola está na qualidade do bem criado e a sua destinação coletiva. Aqui desejamos desenvolver pessoas para um futuro positivo; lá eles desejam criar pessoas para um presente destrutivo e negativo. Mas, vale esta citação do Clausewitz para este momento: Quando o discernimento é claro e profundo o resultado não pode ser outra coisa que não princípios gerais e vistas de ação de um alto nível; é nestes princípios que está ancorada a opinião em cada caso particular imediatamente considerado. (...) Nestes casos, muitas vezes, nada mais nos pode ajudar senão uma máxima imperativa, independente de raciocínio, e que logo o controla: a máxima é, em todos os casos duvidosos, deve aderir-se à primeira opinião, e não desistir dela até que a isso sejamos forçados por uma convicção clara. Portanto, seja ou não verdadeira a reportagem (uma vez que não tive acesso ao original de O Globo) fico com a máxima de Clausewitz. (Texto da citação: Clausewitz, C. von. Da Guerra. Lisboa: Publicações Europa-América, s. d.). Pão, Paz e Liberdade.

sábado, 9 de junho de 2007

Educação, Economia e Administração: Fatores para o Desenvolvimento de Pessoas (Conclusão)

Tenho recebido boas colaborações e sugestões de amigos e estudantes que têm acompanhado com interesse meus ensaios. Uma dessas colaborações foi um artigo enviado pelo colega estudante Geraldo Júnior, do curso de Administração da UESB (um assíduo visitante do Blog), no qual o colega Administrador Stephen Kanitz apresenta algumas previsões (cenários) e aprecia os primeiros resultados para 2007. Em sua previsão número 4 ele diz que: O Brasil continuará a ser muito mal administrado. Trilhões de reais de dinheiro público serão "administrados" por pessoas que nunca estudaram administração, nunca fizeram um MBA nem sabem o que é "regime de competência" e "regime de caixa". Por isso, serão enganadas, roubadas e ludibriadas por pessoas mais espertas do que elas. Aliás, o “conhecimento” que mais predomina no processo instrucional brasileiro é o da esperteza como prática bem sucedida entre profissionais de todos os níveis e camadas (que muitos gostam de chamar de “jeitinho brasileiro”, o qual, para mim, não passa de mais uma prática para espertalhões que procuram ludibriar ou enganar os outros com um “discurso eloqüente” como se fosse o dono do conhecimento). Se assim acontecer e continuar, daqui para frente, como promover mudanças administrativas que beneficiem a economia e a educação se essa espécie de “administração por esperteza”, que desloca para o lixo a “criatividade”, não tem condições de contribuir para que os recursos sejam devidamente bem utilizados? Não consigo ver desenvolvimento humano sem que haja desenvolvimento educacional e econômico. Estas três formas de desenvolvimento parece não fazer parte da agenda dos políticos e, até, de muitos brasileiros que facilmente têm acesso aos trilhões de que fala Kanitz.
A Administração, mais do que a Economia, representa a realização de forma correta, ética e produtiva do uso dos recursos escassos através das pessoas como sistemas humanos, sejam estes recursos financeiros, informacionais, culturais, sociais, etc. Como é difícil haver desenvolvimento de pessoas, de negócios, de riquezas sem educação, sem economia e sem administração, só nos resta, portanto, jogar com a sorte e esperar que algo inusitado aconteça para que possamos promover as transformações necessárias ainda neste século. Um dos perigos ou, poderia dizer, ameaças para o Homem e que contribui para que se esteja acelerando o Obsoletismo Humano é a fixação de padrões ou a utilização de padrões por um longo tempo (o que tende a gerar estabilidade negativa). Temos como prova disto o próprio sistema pedagógico que se instalou no Brasil e, em especial o processo de avaliação que está embutido nele. Este processo não avalia a aprendizagem e muito mal examina os padrões ensinados ao estudante. A-prender é fugir de padrões. O aprendiz é uma pessoa livre que prefere aquilo que é novo e que ainda não está apoiado em algum paradigma para começar a delimitar os caminhos que ele deseja seguir. Mais uma vez converso com De Bono, quando ele diz que um padrão é como uma trilha. Quando você está nela, é mais provável que a próxima parada seja nela mesma do que em outro ponto qualquer em outra direção. É pouco provável que saia da trilha ou volte por ela (De Bono, 2000, p.24). Esta proposição de De Bono é interessante porque reflete o que estou abordando sobre o obsoletismo educacional como base para promover o obsoletismo do homem brasileiro.
Um perigo que está à porta do processo educacional brasileiro refere-se ao continuísmo desse obsoletismo educacional nos cursos de educação à distância (EAD). Se no curso presencial não estamos conseguindo formar os profissionais que o futuro exige, hoje, quem garante que teremos qualidade e capacidade para formá-los nos cursos de bacharelado à distância? Por enquanto, o que tenho observado é que as mantenedoras estão de imediato mais interessadas no retorno financeiro que estes cursos podem proporcionar enquanto que o MEC continua avaliando e autorizando cursos seguindo os mesmos roteiros velhos e reformados para aprovar os novos cursos. A tecnologia está obsoletizando a sala de aula e o professor e as instituições de educação não estão investindo ou não querem investir no seu ativo mais importante que é o profissional ou o empreendedor educacional, do conhecimento. O país carece de profissionais com nível superior em grande quantidade, em especial de bons profissionais de administração, de engenharia, de contabilidade, de medicina. Porém, não é possível formar profissionais utilizando esta metodologia educacional e pedagógica que está em vigor e que é defendida pelo Ministério do Emburrecimento e suas Secretarias estaduais e municipais. Sempre que alguém ou alguma organização procura fugir dos padrões estabelecidos sofre uma punição. Para concluir, cito mais uma vez De Bono que não sendo pedagogo nos fornece idéias oportunas que podem contribuir para o desenvolvimento humano, sobretudo através da administração, da economia e da educação. Diz De Bono: O lado negativo dos padrões é que, uma vez estabelecidos, nos prendem numa armadilha. Depois que os córregos e rios se unem, a água flui ao longo de determinados canais – a água deixa de ser livre para fluir para qualquer lugar e formar novos padrões. Nós não temos outra opção a não ser usar padrões ou esquemas já estabelecidos em mais de 90% de nosso raciocínio e comportamento. Mas também precisamos da capacidade de desafiar esses padrões de vez em quando, com o objetivo de criar padrões melhores. Creio que isto já vem sendo feito por alguns poucos e teimosos professores que atuam não mais utilizando o obsoleto plano de aulas, mas seguindo uma estrutura livre e auto-organizada em conjunto com os estudantes. A inovação exige coragem, ousadia e... uma anarquia positiva e criativa sem o que não será possível qualquer forma de desenvolvimento. (Texto de De Bono: Novas Estratégias de Pensamento. São Paulo: EXAME/Nobel, 2000).