2. O Industrialismo Tardio
Não basta transformar nem mesmo revolucionar as elites administrativas; é o sistema de relações humanas de que elas participam – isto é, o estilo burocrático – que está em questão. Enquanto esse estilo permanecer imutável, o atraso intelectual não poderá ser recuperado, apesar de todos os esforços que assistimos atualmente. Michel CROSIER[i]
A miopia que predomina na base intelectual brasileira (e chamo de base intelectual os profissionais de educação e outros envolvidos com a formação intelectual e profissional, os quais, também foram tardiamente preparados para promover os níveis de escolaridade de que carece uma sociedade em formação como a brasileira para os desafios do desenvolvimento) é, de certo modo, também, responsável pelos desvios e descalabros que predominam nas elites industrializantes locais.
No afã de copiar modelos revolucionários estrangeiros sem se dedicar a uma apreciação mais crítica e efetiva – desde o modelo positivista de A. Comte, que foi o núcleo gerador da (pseudo)-mudança do regime imperial para o republicano, até as tentativas de implantação de uma república socialista, também como modelo alienígena daquilo que parecia a construção de um paraíso real na Terra – esqueceram de promover meios e recursos para a criação de uma História Brasileira e de uma Cultura criadora. Todas as tentativas de imitação do imaginário estrangeiro em ambientes locais resultaram em prejuízos e um deles foi a formação de uma cultura que não proporciona uma visão positiva do futuro e que não focaliza em uma sociedade industrial criativa.
Creio que o industrialismo tardio dificultou o desenvolvimento brasileiro e, ainda mais, o surgimento de empreendedores e inovadores, bem como de uma cultura de criatividade, dentro da nossa população, tendo em vista que tudo o que se consumia aqui, sobretudo desde a vinda da Família Real para o Brasil e com mais ênfase a partir do segundo império era importado, restando para a elite dos Intelectuais Revolucionários daquela época (os coronéis e latifundiários dominadores das províncias), o papel de mercadores ou comerciantes e manipuladores de uma população alienada.
Em verdade, o ambiente comercial do Brasil não nasceu nas vilas das províncias, mas no entorno da casa grande para depois migrar para as vilas e, ainda mais, como uma extensão daquela bodega do senhor de engenho que vendia todos os tipos de produtos consumidos pelos residentes e serviçais da casa grande.
Nas vilas e, depois nas cidades, os armazéns foram criados pelos coronéis e senhores de engenho para o auto-sustento de seus filhos e filhas e raramente surgia um negócio comercial como iniciativa de algum cidadão livre. Para aqueles que não eram de origem latifundiária (ou da classe privilegiada das vilas e cidades) restava o trabalho menos nobre que era a prestação de serviços de barbearia, sapataria, ferreiro, carroceiro, alfaiate, marinheiro, capataz, balconista, e incrível, de educação.
Os poucos e raros intelectuais, que poderiam compor uma elite revolucionária, procuravam distrair-se ou deleitar-se com temas poucos criativos, troças, modinhas e tertúlias voltados para encantar a falsa nobreza dos senhores de engenhos, das autoridades e dos mercadores endinheirados do império. Tudo era indefinido, imitativo ou repleto de deformações daquilo que as elites coloniais deixaram aqui ou ainda enviavam na forma de produtos acabados para consumo local, desde o primeiro império para posicionar aqui um ponto histórico no tempo.
Assim, a nossa economia nasce primeiramente sob o regime de uma agricultura pobre e uma mineração desconexa e destrutiva e em seguida fortemente orientada para o comércio, para comercialização de produtos importados do reino (ou dos reinos europeus). “Reino” era a palavra que identificava a maioria dos produtos que não eram de produção local: produtos que eram importados tais como: “farinha do reino”, “pimenta do reino”, “casimira do reino”, “seda do reino”, “sapatos do reino”, “ferramentas do reino”, etc.
Nesse tempo os Estados Unidos já eram uma república e estavam na sua segunda revolução industrial com a produção de locomotivas, navios, armamentos, tecidos, remédios, com os processos industriais locais e já registrando patentes e atuando em uma economia de exportação, enquanto o Brasil apenas importava os produtos básicos e os sofisticados para atender à população das províncias e dos latifúndios.
Surge então outra pergunta: Por que o Brasil ou a economia brasileira não conseguiu acompanhar a economia dos Estados Unidos? Pelas minhas leituras os americanos não tinham tempo para pensar em serem atacados por leões porque eles se antecipavam a esses ataques já nos idos de suas revoluções industriais dos Séculos XVIII e XIX. Eles tinham pressa do futuro enquanto o Brasil considerava o passado ainda muito promissor.
Os Estados Unidos conseguiram lançar-se no futuro porque os “fathers” de sua revolução eram, de certo modo, proativos e já possuíam alguma dose de criatividade voltada para posições política e de negócios que enfocavam resultados. No caso do Brasil os (falsos) “fathers” que compunham as elites industrializantes, não estavam diretamente interessados em qualquer forma de mudança efetiva, de desenvolvimento, de crescimento ou de políticas e negócios criativos. Veremos isto mais desdobrado na parte seguinte.
Pão, Paz e Liberdade
Antes de imprimir pense no Meio Ambiente e nos Custos
[i] CROSIER, M. A Sociedade Bloqueada. Brasília, UnB, 1980
sexta-feira, 24 de agosto de 2007
sexta-feira, 17 de agosto de 2007
Desenvolver Pessoas para uma Administração Brasileira
1. Não tente “Matar um Leão Por Dia”. Procure Administrar “Um Leão Por Dia”
É comum ouvir dos gerentes de micro, pequenas e médias empresas, ou mesmo de pessoas ligadas a negócios diversos, a expressão: “Estou matando um leão por dia...”, quando se trata de solucionar problemas ou resolver conflitos na empresa ou fora dela. A expressão assume várias traduções como, por exemplo: “Estou às voltas com problemas diários em minha empresa (organização, relações, etc.) e não disponho de tempo (recursos, informações, ajuda, colaboração, etc.) para resolvê-los”, e tem como metáfora similar e também muito comum entre os Administradores a uma outra metáfora: “Fulano vive apagando incêndio”.
Pela minha ótica administrativa, este é um exemplo de metáfora reativa que é comum encontrar-se na linguagem de gestores, mais do que na de administradores, sobretudo de gestores de senso comum que estão conduzindo negócios sem visão, missão, propósito, valores, filosofia, objetivos, metas e, sobretudo, sem foco ou se utiliza de uma miscelânea de focos que o leva a ficar perdido no meio da turbulência que domina o ambiente estratégico da empresa. Tudo isto quer significar que se trata, nestes casos, de empresas ou organizações sem planejamento ou organizações sem Administradores.
É certo que os micro-negócios não possuem estrutura que comporte contratar um Administrador por tempo integral, mas se o empresário tem visão proativa e não meramente histórica reativa, ele poderá contratar os serviços deste profissional liberal para lhe prestar assistência. Numa comparação (até certo ponto grosseira), pessoalmente eu não posso contratar um médico ou um advogado para prestar serviços para em tempo integral, mas posso contratar os seus serviços indo aos seus consultórios e pagando por cada consulta que eles realizam para mim. Esta é apenas uma questão de atitude e determinação
À metáfora “Estou matando um leão por dia” quero contrapor uma outra que chamo de “Administre um leão por dia”. Enquanto a primeira conduz o empreendedor ou empresário para uma posição retrospectiva negativa (Visão histórica), a segunda, embora não seja totalmente proativa, possui uma energia que promove um impulso adaptativo (realizador) visto que estimula o administrador da empresa a assumir uma posição prospectiva focalizando em metas referentes a objetivos que foram traçado anteriormente para um resultado desejado.
“Matar um leão por dia” é típico ou próprio do dono de negócio que atua calcado em experiências e (possíveis) conhecimentos do passado e representa o modelo mais representativo do empresariado brasileiro, em especial do Nordeste, o qual criou ou implantou um negócio tomando como referência o que foi vivenciado pelos seus antecedentes (pais, avós, tios, irmãos e, até amigos íntimos) no ambiente comercial e de serviço. Aliás, pelo que tenho percebido, esta metáfora é mais usual no comércio, entre comerciantes, e pouco ou quase nunca eu a ouço em conversas com o pessoal da indústria. Surge então uma interrogação: Por que existem mais empresários reativos no comércio do que na indústria? Para responder a esta questão teremos que nos enfronhar um pouco por aquela história que não foi contada em nossos cursos elementar e médio (e até em muitos cursos superiores), em particular quando se trata de estudar a história econômica do Brasil.
Neste trabalho vou procurar discutir alguns elementos que tenho estudado e apresentado como tópicos de aulas-conferências para os estudantes de administração, sobretudo direcionados para uma temática que desenvolvi voltada para a construção de parâmetros com a visão voltada para um conteúdo que possibilite a criação de uma disciplina de Administração Brasileira para os cursos de Administração, Economia e Ciências Contábeis. A idéia é não só resgatar um pouco de uma história que ainda não foi contada ou que não foi devidamente explorado pelos cientistas sociais bem como enxugar os inúmeros exemplos de negócios tipicamente americanos que ilustram nossos textos de administração. Neste trabalho busco o des-conhecimento como base para a construção do saber e focalizando a formação de uma cultura administrativa brasileira. Irei tratar deste tema em vários artigos que poderão ser seriados ou não. Vejam o próximo texto.
É comum ouvir dos gerentes de micro, pequenas e médias empresas, ou mesmo de pessoas ligadas a negócios diversos, a expressão: “Estou matando um leão por dia...”, quando se trata de solucionar problemas ou resolver conflitos na empresa ou fora dela. A expressão assume várias traduções como, por exemplo: “Estou às voltas com problemas diários em minha empresa (organização, relações, etc.) e não disponho de tempo (recursos, informações, ajuda, colaboração, etc.) para resolvê-los”, e tem como metáfora similar e também muito comum entre os Administradores a uma outra metáfora: “Fulano vive apagando incêndio”.
Pela minha ótica administrativa, este é um exemplo de metáfora reativa que é comum encontrar-se na linguagem de gestores, mais do que na de administradores, sobretudo de gestores de senso comum que estão conduzindo negócios sem visão, missão, propósito, valores, filosofia, objetivos, metas e, sobretudo, sem foco ou se utiliza de uma miscelânea de focos que o leva a ficar perdido no meio da turbulência que domina o ambiente estratégico da empresa. Tudo isto quer significar que se trata, nestes casos, de empresas ou organizações sem planejamento ou organizações sem Administradores.
É certo que os micro-negócios não possuem estrutura que comporte contratar um Administrador por tempo integral, mas se o empresário tem visão proativa e não meramente histórica reativa, ele poderá contratar os serviços deste profissional liberal para lhe prestar assistência. Numa comparação (até certo ponto grosseira), pessoalmente eu não posso contratar um médico ou um advogado para prestar serviços para em tempo integral, mas posso contratar os seus serviços indo aos seus consultórios e pagando por cada consulta que eles realizam para mim. Esta é apenas uma questão de atitude e determinação
À metáfora “Estou matando um leão por dia” quero contrapor uma outra que chamo de “Administre um leão por dia”. Enquanto a primeira conduz o empreendedor ou empresário para uma posição retrospectiva negativa (Visão histórica), a segunda, embora não seja totalmente proativa, possui uma energia que promove um impulso adaptativo (realizador) visto que estimula o administrador da empresa a assumir uma posição prospectiva focalizando em metas referentes a objetivos que foram traçado anteriormente para um resultado desejado.
“Matar um leão por dia” é típico ou próprio do dono de negócio que atua calcado em experiências e (possíveis) conhecimentos do passado e representa o modelo mais representativo do empresariado brasileiro, em especial do Nordeste, o qual criou ou implantou um negócio tomando como referência o que foi vivenciado pelos seus antecedentes (pais, avós, tios, irmãos e, até amigos íntimos) no ambiente comercial e de serviço. Aliás, pelo que tenho percebido, esta metáfora é mais usual no comércio, entre comerciantes, e pouco ou quase nunca eu a ouço em conversas com o pessoal da indústria. Surge então uma interrogação: Por que existem mais empresários reativos no comércio do que na indústria? Para responder a esta questão teremos que nos enfronhar um pouco por aquela história que não foi contada em nossos cursos elementar e médio (e até em muitos cursos superiores), em particular quando se trata de estudar a história econômica do Brasil.
Neste trabalho vou procurar discutir alguns elementos que tenho estudado e apresentado como tópicos de aulas-conferências para os estudantes de administração, sobretudo direcionados para uma temática que desenvolvi voltada para a construção de parâmetros com a visão voltada para um conteúdo que possibilite a criação de uma disciplina de Administração Brasileira para os cursos de Administração, Economia e Ciências Contábeis. A idéia é não só resgatar um pouco de uma história que ainda não foi contada ou que não foi devidamente explorado pelos cientistas sociais bem como enxugar os inúmeros exemplos de negócios tipicamente americanos que ilustram nossos textos de administração. Neste trabalho busco o des-conhecimento como base para a construção do saber e focalizando a formação de uma cultura administrativa brasileira. Irei tratar deste tema em vários artigos que poderão ser seriados ou não. Vejam o próximo texto.
Pão, Paz e Liberdade
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sábado, 11 de agosto de 2007
Administração é Essencial e a Gestão é Funcional – Parte II
Alguns colegas, estudantes e interessados em temas de Administração que mantiveram contato comigo nos últimos dias, seja por E-mail, seja por telefone ou mesmo nas salas de aula, mostraram dúvidas ou contribuições para o tema relativo às diferenças que existem entre os termos Administração e Gestão.
Um colega que é assíduo leitor deste Blog e mantém comigo um saudável debate sobre assuntos relacionados com Administração, o Geraldo Júnior da UESB, enviou-me um artigo publicado na revista REA (Revista Eletrônica de Administração) da FACEF com o seguinte título: “Conceitos de Gestão e Administração: Uma Revisão Crítica”, v.1, Edição 1 – Julho-Dezembro de 2002. Confesso que não tinha lido este artigo, o qual considerei interessante e vem juntar-se ao nosso trabalho de bem instruir e ensinar os estudantes a se posicionarem devidamente diante do espaço para o qual estão sendo preparados: de profissionais de Administração e não, apenas, profissionais de Gestão.
Costumo dizer aos estudantes, quando estou discutindo temas desta natureza, que o curso de Administração não ensina ou desenvolve pessoas para serem meros gerentes. Digo-lhes que gerentes são preparados em cursinhos como aqueles apresentados em programas do SEBRAE, SENAC e não em cursos superiores. Digo-lhes mais: posso preparar um bom gerente em 20 horas-aula desde que me dêem espaço e tecnologias suficientes. Todavia, não conseguirei formar um Administrador com esta mesma carga horária, pois precisarei de quatro a cinco anos para deixá-los em condição de se promoverem como tal, para o que eles ainda precisarão participar de vários cursos de especialização e pós-graduação para atingirem o topo da profissão, além da necessidade de vivenciarem muitas experiências empresariais em diferentes situações críticas e não-críticas.
Naturalmente que existem excelentes administradores que não chegaram a cursar Administração e por isso são empresários bem sucedidos. Outros que começaram como gestores e se tornaram também administradores de sucesso. Porém, é importante que se saliente: a discussão aqui segue o caminho de construção de uma profissão: Administrador, que é regulamentada por lei e que representa atualmente uma das mais procuradas e disputadas no mercado de trabalho e não de gerentes ou coordenadores especializados.
Quando insisto no desenvolvimento das Habilidades Essenciais para meus estudantes é porque elas representam o caminho das pedras para que eles possam navegar na turbulência da nossa sociedade e de nossa economia (ver postagens anteriores sobre o assunto). Considero este canal em rede no formato Blog como uma continuação de nossas discussões da sala de aula e, por isso, muitas vezes fico preso a uma linguagem (possivelmente) pesada, de certa forma convencional em relação ao conteúdo acadêmico, mas não existe nisto nenhuma intenção de sofisticar os temas ou os textos aqui publicados. Valho-me daquilo que já escrevi em outra postagem com respeito a meramente “blogar” amenidades do dia-a-dia ou postar artigos que, pelo menos, possuam algum conteúdo técnico ou mesmo científico capaz de suscitar dúvidas e, assim, contribuir para nossa aprendizagem (ver postagem sobre este tema). Prefiro, ainda, ficar com o provérbio chinês que diz: “A Dúvida é a ante-sala do Conhecimento”.
Já pensei em criar outro Blog apenas para conversas leves, cotidianas, amenidades, apreciação do contexto político do país, de certo modo mais coerentes com o perfil do leitor brasileiro e que foquem assuntos e temas interessantes para esses leitores. Porém ainda não está na hora, creio, de deixar de contribuir para a melhoria de nossa capacidade de leitura, em especial pelo fato de a maioria das pessoas não gostarem de ler ou comprar livros, revistas, jornais, como está bem claro nas últimas pesquisas relacionadas com a educação, algumas inclusive discutidas por mim aqui. Uma reportagem que me chamou a atenção entre tantas informações relacionadas com a educação que coleciono, foi a da revista Exame de setembro de 2006, cujo título: “O Preço da Ignorância” é de fato entristecedor. Quais as causas ou razões que impedem o país de se tornar mais educado, mais instruído (pelo menos) e de colocar em ação idéias tão boas quanto as de Anísio Teixeira e Darci Ribeiro, como já salientei antes?
Sair deste meu estilo é colaborar ainda para mais para essa ignorância e para o empobrecimento da capacidade interpretativa e comunicativa das pessoas, como bem mostram os enganos ou os vícios de linguagem usualmente empregados em nossas relações pessoais, como é o caso das palavras Gestão e Administração. Afinal, o que mais existem são Blogs de amenidades, fofocas, promoção de auto-ajuda e experiências pessoais em assuntos que quase não agregam valor à construção do conhecimento; garanto que poucos são os que se preocupam com os “sabores da língua portuguesa” ou mesmo da linguagem técnica aplicada a uma área de conhecimento, neste caso a Administração.
Aqui faço referência, mais uma vez, ao Blog do amigo Ozaí (http://antonio-ozai.blogspot.com), quando ele resgata a discussão do “gerundismo” que, talvez, interesse a poucos neste país, mas que considero muito importante para que não façamos de nossa língua um dialeto irreconhecível e de difícil compreensão ou, mesmo, um conjunto de dialetos incompreensíveis cujo entendimento seja específico de cada “tribo” de internautas, de profissionais, de jovens ou mesmo velhos que não se definiram na vida e usam esses recursos como escape de frustrações, em especial no importante processo de comunicação que representa, para o Administrador, um fator de sucesso nos relacionamentos empresariais e negociais. A propósito sugiro a leitura do artigo “O Gerúndio é só pretexto”, publicado na revista Língua Portuguesa de 16/08/2005.
Contudo, quando se trata de ver a empresa como uma organização holística, como um Circo, prefiro a palavra administração; quando a vejo como um Time de Vôlei, gosto de usar mais a palavra gestão embora nos casos mais apropriados ao papel do profissional de Administração saliento esta palavra. Porém quando se trata de uma atuação mais realizadora, mais executante no nível da Escola de Samba, como lidar com operações em um sistema produtivo ou mesmo na direção de um processo creio ser pertinente o uso da palavra gestão mais do que administração. Enfim, fica a consideração de que todo ser humano pode ser um gestor, porém apenas alguns podem, efetivamente, ser administrador. Em particular eu não daria uma empresa minha, hoje, para um colaborador dirigir se ele fosse gestor apenas. Para mim ele teria que ser primeiro administrador para em seguida ser gestor para assumir um cargo de direção, de coordenação, de gerente até o nível em que ocorresse risco para a tomada de decisão crítica.
Pão, Paz e Liberdade
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Um colega que é assíduo leitor deste Blog e mantém comigo um saudável debate sobre assuntos relacionados com Administração, o Geraldo Júnior da UESB, enviou-me um artigo publicado na revista REA (Revista Eletrônica de Administração) da FACEF com o seguinte título: “Conceitos de Gestão e Administração: Uma Revisão Crítica”, v.1, Edição 1 – Julho-Dezembro de 2002. Confesso que não tinha lido este artigo, o qual considerei interessante e vem juntar-se ao nosso trabalho de bem instruir e ensinar os estudantes a se posicionarem devidamente diante do espaço para o qual estão sendo preparados: de profissionais de Administração e não, apenas, profissionais de Gestão.
Costumo dizer aos estudantes, quando estou discutindo temas desta natureza, que o curso de Administração não ensina ou desenvolve pessoas para serem meros gerentes. Digo-lhes que gerentes são preparados em cursinhos como aqueles apresentados em programas do SEBRAE, SENAC e não em cursos superiores. Digo-lhes mais: posso preparar um bom gerente em 20 horas-aula desde que me dêem espaço e tecnologias suficientes. Todavia, não conseguirei formar um Administrador com esta mesma carga horária, pois precisarei de quatro a cinco anos para deixá-los em condição de se promoverem como tal, para o que eles ainda precisarão participar de vários cursos de especialização e pós-graduação para atingirem o topo da profissão, além da necessidade de vivenciarem muitas experiências empresariais em diferentes situações críticas e não-críticas.
Naturalmente que existem excelentes administradores que não chegaram a cursar Administração e por isso são empresários bem sucedidos. Outros que começaram como gestores e se tornaram também administradores de sucesso. Porém, é importante que se saliente: a discussão aqui segue o caminho de construção de uma profissão: Administrador, que é regulamentada por lei e que representa atualmente uma das mais procuradas e disputadas no mercado de trabalho e não de gerentes ou coordenadores especializados.
Quando insisto no desenvolvimento das Habilidades Essenciais para meus estudantes é porque elas representam o caminho das pedras para que eles possam navegar na turbulência da nossa sociedade e de nossa economia (ver postagens anteriores sobre o assunto). Considero este canal em rede no formato Blog como uma continuação de nossas discussões da sala de aula e, por isso, muitas vezes fico preso a uma linguagem (possivelmente) pesada, de certa forma convencional em relação ao conteúdo acadêmico, mas não existe nisto nenhuma intenção de sofisticar os temas ou os textos aqui publicados. Valho-me daquilo que já escrevi em outra postagem com respeito a meramente “blogar” amenidades do dia-a-dia ou postar artigos que, pelo menos, possuam algum conteúdo técnico ou mesmo científico capaz de suscitar dúvidas e, assim, contribuir para nossa aprendizagem (ver postagem sobre este tema). Prefiro, ainda, ficar com o provérbio chinês que diz: “A Dúvida é a ante-sala do Conhecimento”.
Já pensei em criar outro Blog apenas para conversas leves, cotidianas, amenidades, apreciação do contexto político do país, de certo modo mais coerentes com o perfil do leitor brasileiro e que foquem assuntos e temas interessantes para esses leitores. Porém ainda não está na hora, creio, de deixar de contribuir para a melhoria de nossa capacidade de leitura, em especial pelo fato de a maioria das pessoas não gostarem de ler ou comprar livros, revistas, jornais, como está bem claro nas últimas pesquisas relacionadas com a educação, algumas inclusive discutidas por mim aqui. Uma reportagem que me chamou a atenção entre tantas informações relacionadas com a educação que coleciono, foi a da revista Exame de setembro de 2006, cujo título: “O Preço da Ignorância” é de fato entristecedor. Quais as causas ou razões que impedem o país de se tornar mais educado, mais instruído (pelo menos) e de colocar em ação idéias tão boas quanto as de Anísio Teixeira e Darci Ribeiro, como já salientei antes?
Sair deste meu estilo é colaborar ainda para mais para essa ignorância e para o empobrecimento da capacidade interpretativa e comunicativa das pessoas, como bem mostram os enganos ou os vícios de linguagem usualmente empregados em nossas relações pessoais, como é o caso das palavras Gestão e Administração. Afinal, o que mais existem são Blogs de amenidades, fofocas, promoção de auto-ajuda e experiências pessoais em assuntos que quase não agregam valor à construção do conhecimento; garanto que poucos são os que se preocupam com os “sabores da língua portuguesa” ou mesmo da linguagem técnica aplicada a uma área de conhecimento, neste caso a Administração.
Aqui faço referência, mais uma vez, ao Blog do amigo Ozaí (http://antonio-ozai.blogspot.com), quando ele resgata a discussão do “gerundismo” que, talvez, interesse a poucos neste país, mas que considero muito importante para que não façamos de nossa língua um dialeto irreconhecível e de difícil compreensão ou, mesmo, um conjunto de dialetos incompreensíveis cujo entendimento seja específico de cada “tribo” de internautas, de profissionais, de jovens ou mesmo velhos que não se definiram na vida e usam esses recursos como escape de frustrações, em especial no importante processo de comunicação que representa, para o Administrador, um fator de sucesso nos relacionamentos empresariais e negociais. A propósito sugiro a leitura do artigo “O Gerúndio é só pretexto”, publicado na revista Língua Portuguesa de 16/08/2005.
Contudo, quando se trata de ver a empresa como uma organização holística, como um Circo, prefiro a palavra administração; quando a vejo como um Time de Vôlei, gosto de usar mais a palavra gestão embora nos casos mais apropriados ao papel do profissional de Administração saliento esta palavra. Porém quando se trata de uma atuação mais realizadora, mais executante no nível da Escola de Samba, como lidar com operações em um sistema produtivo ou mesmo na direção de um processo creio ser pertinente o uso da palavra gestão mais do que administração. Enfim, fica a consideração de que todo ser humano pode ser um gestor, porém apenas alguns podem, efetivamente, ser administrador. Em particular eu não daria uma empresa minha, hoje, para um colaborador dirigir se ele fosse gestor apenas. Para mim ele teria que ser primeiro administrador para em seguida ser gestor para assumir um cargo de direção, de coordenação, de gerente até o nível em que ocorresse risco para a tomada de decisão crítica.
Pão, Paz e Liberdade
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sábado, 4 de agosto de 2007
A Administração é Essencial e a Gestão é Funcional
Que me desculpem os entusiastas (e gurus) da Gestão, mas a Administração é Essencial. Vejo em muitos títulos de livro, de artigos, disciplinas e até em nomes de cursos de pós-graduação o uso (às vezes exagerado!) da palavra Gestão. Será que os usuários desta palavra sabem o que realmente estão fazendo ao usá-la? Vejamos um breve relato que serve para ilustrar esta questão.
Certa feita uma colega, profissional de Administração, teve a sua matricula recusada em um curso de pós-graduação Lato Sensu em Gestão Ambiental. Ato contínuo ela veio me procurar na qualidade de Delegado do CRA-BA para a Região Sudoeste, para se queixar e pedir que interferisse junto à Coordenação do Curso no sentido de matriculá-la, uma vez que ela era Administradora, o curso era sobre Gestão e, portanto, ela apresentava os principais requisitos para ser matriculada.
Antes de recorrer à Coordenação do curso, perguntei à reclamante as razões que lhe haviam apresentado no ato de recusa da matrícula no referido curso e ela me falou que lhe negaram a inscrição porque não estava habilitada a cursar visto que o conteúdo do curso era todo baseado em temas de Ciências Naturais tais como: Biologia, Ecologia, Biodiversidade, etc., os quais não tinham nenhuma relação com o histórico que ela estava apresentando como documento exigido para comprovação e aceitação no curso. Pela minha visão, ambos (Coordenador e Administradora) estavam certos e plenos de razão.
No caso da profissional de Administração havia a coerência para exigir a matricula porque o curso era de Gestão Ambiental e esta é uma das suas áreas de atuação profissional; segundo seu conhecimento, a gestão é parte intrínseca da Administração. Já o Coordenador, apresentava razões coerentes porque o programa do curso estava cobrindo temas relacionados com as Ciências Naturais e não com as Ciências Sociais Aplicadas.
Que fatores contribuem para que ocorram dificuldades de entendimento desta espécie? Qual o conceito de Gestão segundo o enfoque das Ciências Naturais (se tal existe) e o das Ciências Sociais Aplicadas como hoje se apresenta em todos os ambientes que exigem o desempenho de papeis e o envolvimento empresarial e educacional? Hoje é possível criar negócios em várias áreas de conhecimento humano e em todas ambas são necessárias.
Porém, o uso indiscriminado de uma palavra ou expressão idiomática pode levar as pessoas a exageros desnecessários e isto é o que vem acontecendo com a palavra Gestão. Quase todas as áreas de conhecimento humano, hoje, oferecem possibilidades de gestão e administração, porém, muitas dessas áreas vêm usando de forma abusiva esta palavra para justificar, talvez, as ações para gerir um processo técnico e científico que está sendo conduzido pela prática diária de atividades operacionais, sejam em laboratórios, sejam em ambientes organizacionais, sejam em processos funcionais de instituições científicas e sem fins lucrativos.
Contudo, muitos desses profissionais não estão bem preparados, do ponto de vista administrativo, em relação ao que significa Gestão em seu conteúdo orientado para as competências essenciais de suas profissões, pois somente o curso de bacharelato em Administração oferece condições e possibilidades de preparar e formar profissionais que podem atender, ao mesmo tempo, a Administração e a Gestão.
Isto implica em que não se exige necessariamente uma formação em Administração para se desempenhar as atividades de Gestor quando é requerido desempenho funcional em sentido específico, especializado. Porém em sentido administrativo e geral, torna-se necessário a participação do Administrador quando se trata de gerir os recursos e buscar através deles resultados e benefícios para a organização e para aqueles que a constituíram ou a mantêm, o que leva a questão da colega para um patamar que deixa a coordenação do curso de Gestão Ambiental plena de razão para recusar sua matrícula se esta última assertiva não se aplica ao curso.
Infelizmente esta confusão vai persistir por muito tempo e ainda mais porque os próprios Administradores se curvam em aceitar sem questionar a utilização da palavra Gestão em lugar de Administração quando no exercício de sua profissão, como vem ocorrendo no mundo dos negócios. Ainda podemos salientar que a palavra Gerente, que tem raiz em gerir, é sinônima da palavra Gestor, porém ambas não são sinônimas de Administrador, uma vez que até por conceito legal não atendem aos requisitos da Lei 4769 de 09 de setembro de 1965 que cria e dá suporte normativo a esta profissão.
Geralmente eu uso a palavra gestão quando estou me referindo aos elementos estruturais de desempenho de atividades e quando os elementos estruturantes estão funcionalmente atuando sobre os elementos aestruturais e envolvidos com a realização das ações projetadas para uma organização; e ainda mais porque esta palavra é fácil de ser assimilada pelos leitores ou executores das atividades gerenciais. Também a uso porque as pessoas que atuam diariamente sob a condição do senso comum procuram usar com freqüência em suas conversações diárias a palavra gestão para se referir ao trabalho gerencial ou mesmo de direção e coordenação dentro de uma empresa.
Contudo, torna-se necessário que as pessoas que atuam nos postos-chave de uma organização e que estejam exercendo ações e atividades administrativas não se utilizem do mesmo recurso de dizer que são gestores ou que estão desempenhando a gestão de suas áreas de trabalho porque eles estão mais além desta condição. Eles estão administrando e gerindo e não apenas gerindo uma área de negócio. Advirto meus estudantes para esta distinção entre o que se faz com senso comum e o que procede segundo critérios científicos.
Assim sendo, uma forma de se posicionar em relação ao uso destas duas palavras é observando que Administração é Ação (o que, quando e quanto) enquanto que Gestão é Atividade (como, onde e quanto). Em outras palavras: Administração é Eficácia e Gestão é Eficiência. Fazendo assim, torna-se mais fácil assumir o papel que realmente cabe a cada um no ambiente empresarial ou institucional. É importante salientar em relação à temporalidade que Ação aqui resulta em “produtos” intangíveis, imperecíveis, enquanto que os “produtos” resultantes da Atividade são tangíveis e perecíveis.
O profissional de Administração tem que ser formado com capacidade para realizar estas duas dimensões. E aqui entra o importante papel do Professor como administrador e gestor do conteúdo de suas disciplinas além, naturalmente, da significativa importância da interdisciplinaridade e da transdisciplinaridade para a formação de um profissional de Administração.
Isto que dizer que o trabalho do Administrador é pensar e agir sobre o que, quando e quanto deve ser feito para se produzir algo, enquanto o trabalho do Gestor é fazer e atuar sobre o que deve ser feito e como, onde e quanto ser feito para que a organização seja bem sucedida em suas ações de desempenho, coopetitividade e lucratividade. A reunião dos dois resulta em efetividade para a empresa, instituição, etc.
Quero salientar, por exemplo, que, em se tratando de Administração e Gestão Estratégica, tem-se que: Estratégia é a Realização da Administração com a Gestão, isto é, que enquanto o Administrador estabelece os parâmetros da Estratégia (Eficácia) o Gestor realiza os parâmetros da Tática (Eficiência) para que a Operação seja bem sucedida (Efetividade), tudo isto em conjunto harmonioso dentro da simultaneidade sistêmica que permite a efetivação das ações e das atividades negociais. Considerando os produtos SHENG nós promovemos isto através do Sistema CACHHH (cooperação, amorização, colaboração humorização, harmonização e humanização).
Existem autores (e pesquisadores) que estão escrevendo artigos e livros nos quais ressaltam que estamos saindo da era da Administração Estratégica para a era da Gestão Estratégica, ou seja, do meramente pensar a Estratégia para o importante momento de fazer a Estratégia, e mais: de o que seja Estratégia para o como é a Estratégica e assim seguindo para todas as demais áreas que compõem uma organização. Para mim está havendo um erro de ênfase, tendo em vista a preocupação dos estudiosos, e também dos gerentes, com a competitividade quando, a partir de agora é mais importante estar atento para as variáveis que compõem a Coopetitividade, orientando-se as empresas mais para vantagens comparativas, intuitivas, emocionais, cognitivas entre concorrentes, do que meramente para o confronto competitivo com os concorrentes.
Em suma, ambas são dimensões importantes para que os negócios sejam bem sucedidos, mas não adianta investir somente na formação de gestores em detrimento do desenvolvimento humano em administração, a menos que não se deseje obter resultados negociais e não se esteja interessado na efetividade organizacional. Penso que foi isto que ocorreu com o pessoal do curso de Gestão Ambiental, o qual, neste caso, estava orientado mais para como operacionalizar as questões ambientais desde o foco bio-ecológico, do que para administrar as questões ambientais negociais e, por isso, não lhe interessava as abordagens científicas próprias para aqueles que se dedicam a um aperfeiçoamento em administração e gestão de negócios.
Pão, Paz e Liberdade
Antes de imprimir pense no Meio Ambiente e nos Custos
Leituras sugeridas para orientar os profissionais e estudantes sobre esta discussão:
CARAVANTES, G. e BJUR, W. ReAdministração em Ação. São Paulo: MAKRON Books, 1996.
GUERREIRO RAMOS, Alberto. Administração e Contexto Brasileiro. Rio de Janeiro: FGV, 1983.
HENDERSON, Hazel. Construindo um mundo onde todos ganhem. São Paulo: Cultrix, 1998.
MORGAN, Gareth. Imagens da Organização. São Paulo: Atlas, 1996.
WRIGHT, P., KROLL, M. J. e PARNELL, J. Administração Estratégica. São Paulo: Atlas, 2000.
Certa feita uma colega, profissional de Administração, teve a sua matricula recusada em um curso de pós-graduação Lato Sensu em Gestão Ambiental. Ato contínuo ela veio me procurar na qualidade de Delegado do CRA-BA para a Região Sudoeste, para se queixar e pedir que interferisse junto à Coordenação do Curso no sentido de matriculá-la, uma vez que ela era Administradora, o curso era sobre Gestão e, portanto, ela apresentava os principais requisitos para ser matriculada.
Antes de recorrer à Coordenação do curso, perguntei à reclamante as razões que lhe haviam apresentado no ato de recusa da matrícula no referido curso e ela me falou que lhe negaram a inscrição porque não estava habilitada a cursar visto que o conteúdo do curso era todo baseado em temas de Ciências Naturais tais como: Biologia, Ecologia, Biodiversidade, etc., os quais não tinham nenhuma relação com o histórico que ela estava apresentando como documento exigido para comprovação e aceitação no curso. Pela minha visão, ambos (Coordenador e Administradora) estavam certos e plenos de razão.
No caso da profissional de Administração havia a coerência para exigir a matricula porque o curso era de Gestão Ambiental e esta é uma das suas áreas de atuação profissional; segundo seu conhecimento, a gestão é parte intrínseca da Administração. Já o Coordenador, apresentava razões coerentes porque o programa do curso estava cobrindo temas relacionados com as Ciências Naturais e não com as Ciências Sociais Aplicadas.
Que fatores contribuem para que ocorram dificuldades de entendimento desta espécie? Qual o conceito de Gestão segundo o enfoque das Ciências Naturais (se tal existe) e o das Ciências Sociais Aplicadas como hoje se apresenta em todos os ambientes que exigem o desempenho de papeis e o envolvimento empresarial e educacional? Hoje é possível criar negócios em várias áreas de conhecimento humano e em todas ambas são necessárias.
Porém, o uso indiscriminado de uma palavra ou expressão idiomática pode levar as pessoas a exageros desnecessários e isto é o que vem acontecendo com a palavra Gestão. Quase todas as áreas de conhecimento humano, hoje, oferecem possibilidades de gestão e administração, porém, muitas dessas áreas vêm usando de forma abusiva esta palavra para justificar, talvez, as ações para gerir um processo técnico e científico que está sendo conduzido pela prática diária de atividades operacionais, sejam em laboratórios, sejam em ambientes organizacionais, sejam em processos funcionais de instituições científicas e sem fins lucrativos.
Contudo, muitos desses profissionais não estão bem preparados, do ponto de vista administrativo, em relação ao que significa Gestão em seu conteúdo orientado para as competências essenciais de suas profissões, pois somente o curso de bacharelato em Administração oferece condições e possibilidades de preparar e formar profissionais que podem atender, ao mesmo tempo, a Administração e a Gestão.
Isto implica em que não se exige necessariamente uma formação em Administração para se desempenhar as atividades de Gestor quando é requerido desempenho funcional em sentido específico, especializado. Porém em sentido administrativo e geral, torna-se necessário a participação do Administrador quando se trata de gerir os recursos e buscar através deles resultados e benefícios para a organização e para aqueles que a constituíram ou a mantêm, o que leva a questão da colega para um patamar que deixa a coordenação do curso de Gestão Ambiental plena de razão para recusar sua matrícula se esta última assertiva não se aplica ao curso.
Infelizmente esta confusão vai persistir por muito tempo e ainda mais porque os próprios Administradores se curvam em aceitar sem questionar a utilização da palavra Gestão em lugar de Administração quando no exercício de sua profissão, como vem ocorrendo no mundo dos negócios. Ainda podemos salientar que a palavra Gerente, que tem raiz em gerir, é sinônima da palavra Gestor, porém ambas não são sinônimas de Administrador, uma vez que até por conceito legal não atendem aos requisitos da Lei 4769 de 09 de setembro de 1965 que cria e dá suporte normativo a esta profissão.
Geralmente eu uso a palavra gestão quando estou me referindo aos elementos estruturais de desempenho de atividades e quando os elementos estruturantes estão funcionalmente atuando sobre os elementos aestruturais e envolvidos com a realização das ações projetadas para uma organização; e ainda mais porque esta palavra é fácil de ser assimilada pelos leitores ou executores das atividades gerenciais. Também a uso porque as pessoas que atuam diariamente sob a condição do senso comum procuram usar com freqüência em suas conversações diárias a palavra gestão para se referir ao trabalho gerencial ou mesmo de direção e coordenação dentro de uma empresa.
Contudo, torna-se necessário que as pessoas que atuam nos postos-chave de uma organização e que estejam exercendo ações e atividades administrativas não se utilizem do mesmo recurso de dizer que são gestores ou que estão desempenhando a gestão de suas áreas de trabalho porque eles estão mais além desta condição. Eles estão administrando e gerindo e não apenas gerindo uma área de negócio. Advirto meus estudantes para esta distinção entre o que se faz com senso comum e o que procede segundo critérios científicos.
Assim sendo, uma forma de se posicionar em relação ao uso destas duas palavras é observando que Administração é Ação (o que, quando e quanto) enquanto que Gestão é Atividade (como, onde e quanto). Em outras palavras: Administração é Eficácia e Gestão é Eficiência. Fazendo assim, torna-se mais fácil assumir o papel que realmente cabe a cada um no ambiente empresarial ou institucional. É importante salientar em relação à temporalidade que Ação aqui resulta em “produtos” intangíveis, imperecíveis, enquanto que os “produtos” resultantes da Atividade são tangíveis e perecíveis.
O profissional de Administração tem que ser formado com capacidade para realizar estas duas dimensões. E aqui entra o importante papel do Professor como administrador e gestor do conteúdo de suas disciplinas além, naturalmente, da significativa importância da interdisciplinaridade e da transdisciplinaridade para a formação de um profissional de Administração.
Isto que dizer que o trabalho do Administrador é pensar e agir sobre o que, quando e quanto deve ser feito para se produzir algo, enquanto o trabalho do Gestor é fazer e atuar sobre o que deve ser feito e como, onde e quanto ser feito para que a organização seja bem sucedida em suas ações de desempenho, coopetitividade e lucratividade. A reunião dos dois resulta em efetividade para a empresa, instituição, etc.
Quero salientar, por exemplo, que, em se tratando de Administração e Gestão Estratégica, tem-se que: Estratégia é a Realização da Administração com a Gestão, isto é, que enquanto o Administrador estabelece os parâmetros da Estratégia (Eficácia) o Gestor realiza os parâmetros da Tática (Eficiência) para que a Operação seja bem sucedida (Efetividade), tudo isto em conjunto harmonioso dentro da simultaneidade sistêmica que permite a efetivação das ações e das atividades negociais. Considerando os produtos SHENG nós promovemos isto através do Sistema CACHHH (cooperação, amorização, colaboração humorização, harmonização e humanização).
Existem autores (e pesquisadores) que estão escrevendo artigos e livros nos quais ressaltam que estamos saindo da era da Administração Estratégica para a era da Gestão Estratégica, ou seja, do meramente pensar a Estratégia para o importante momento de fazer a Estratégia, e mais: de o que seja Estratégia para o como é a Estratégica e assim seguindo para todas as demais áreas que compõem uma organização. Para mim está havendo um erro de ênfase, tendo em vista a preocupação dos estudiosos, e também dos gerentes, com a competitividade quando, a partir de agora é mais importante estar atento para as variáveis que compõem a Coopetitividade, orientando-se as empresas mais para vantagens comparativas, intuitivas, emocionais, cognitivas entre concorrentes, do que meramente para o confronto competitivo com os concorrentes.
Em suma, ambas são dimensões importantes para que os negócios sejam bem sucedidos, mas não adianta investir somente na formação de gestores em detrimento do desenvolvimento humano em administração, a menos que não se deseje obter resultados negociais e não se esteja interessado na efetividade organizacional. Penso que foi isto que ocorreu com o pessoal do curso de Gestão Ambiental, o qual, neste caso, estava orientado mais para como operacionalizar as questões ambientais desde o foco bio-ecológico, do que para administrar as questões ambientais negociais e, por isso, não lhe interessava as abordagens científicas próprias para aqueles que se dedicam a um aperfeiçoamento em administração e gestão de negócios.
Pão, Paz e Liberdade
Antes de imprimir pense no Meio Ambiente e nos Custos
Leituras sugeridas para orientar os profissionais e estudantes sobre esta discussão:
CARAVANTES, G. e BJUR, W. ReAdministração em Ação. São Paulo: MAKRON Books, 1996.
GUERREIRO RAMOS, Alberto. Administração e Contexto Brasileiro. Rio de Janeiro: FGV, 1983.
HENDERSON, Hazel. Construindo um mundo onde todos ganhem. São Paulo: Cultrix, 1998.
MORGAN, Gareth. Imagens da Organização. São Paulo: Atlas, 1996.
WRIGHT, P., KROLL, M. J. e PARNELL, J. Administração Estratégica. São Paulo: Atlas, 2000.
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