6. Do Fator Agrícola ao Fator Industrial: Uma trajetória do Desenvolvimento Brasileiro (2)
Nas grandes indústrias, como aquela a que nos dedicamos, em um meio pouco industrial como o nosso, o braço que trabalha vale pelo menos tanto quando a cabeça que o dirige, ou o capital que o vivifica. (Luiz Tarquínio, apud DUMÊT, 1999, p.121)[i].
O primeiro movimento industrial brasileiro começa, logo após a chegada de D. João VI e a família real, com a fabricação de engenhos e melhoria do processo produtivo para a fabricação de açúcar, e aqui se salienta o trabalho publicado pelo baiano Dr. Manoel Jahcinto de Sampaio Melo com o título: “Novo método de fazer açúcar em reforma geral”, o qual ensinava como aperfeiçoar os engenhos, como bem utilizar as fornalhas e toda a seqüência relacionada com boas práticas para a produção de açúcar.
O passo seguinte foi incentivar a exploração mineral, não apenas as lavras auríferas, diamantíferas e jazidas de esmeraldas, mas, sobretudo, de minerais ferrosos e não-ferrosos, com o que surge nas localidades de Itabira de Matta Dentro, Inficionado, Cocaes e em São José da Lagoa as primeiras instalações para processamento de minérios de ferro. Porém, tudo faz crer que a primeira fábrica ou usina de processamento de minerais de ferro foi instalada em Minas, na localidade chamada Serra do Pilar, já dotada de fornos modernos.
É interessante quando realizamos pesquisa documental como a leitura e releitura desses materiais nos levam a perceber detalhes históricos de grande valia, em especial relacionados com a história econômica e administrativa do Brasil. Deste modo percebo que falta nos nossos programas educacionais, tanto nos cursos elementares quanto no médio e superior disciplinas ou materiais inseridos em disciplinas que permitam estudar o processo empreendedorial brasileiro e que envolvam estudos e análises de fatos econômicos e administrativos que não foram bem relatados ou historiados pelos estudiosos que estavam a cargo de grupos dominantes em termos políticos e econômicos no Brasil.
Basta ler a história de Delmiro Gouveia para perceber como a situação econômica do Brasil sofreu grande atraso porque os países mais desenvolvidos do século 19 atuavam de modo imperialista e impediam que aqui se promovesse a industrialização, em particular porque eles sabiam que a ideologia do industrialismo tende a realizar transformações de peso nos locais onde é implantada. Educação e industrialismo são duas ações que causam temor aos países mais desenvolvidos em relação aos menos desenvolvidos. O maior exemplo que se tinha naquela época eram os Estados Unidos e a Inglaterra, em especial, temia que surgissem nas Américas outros países com o mesmo fôlego ianque para o desenvolvimento. Vale salientar, entretanto, que o maior inimigo do desenvolvimento nacional encontra-se dentro do próprio Brasil o que permite que esses imperialistas se apossem de nossas bases econômicas.
Portanto, antes de se promover uma luta contra o imperialismo, que geralmente surge dos processos de industrialização, torna-se necessário que os nossos ideólogos procurem formar conceitos e atitudes que levem a uma luta contra o estado político dominador que se instalou no país desde o golpe contra o Império que foi chamado de proclamação da república e que permanece com as suas variações até o presente.
Antes de levar os nossos estudantes a decorarem textos marxistas ou derivados destes, devemos levá-los a estudar as biografias de grandes empreendedores como Mauá, Delmiro, e o esquecido baiano Luiz Tarquínio. As crianças e jovens aprenderiam mais lendo e interpretando a realização desses personagens de nossa economia que lendo livros de conteúdo meramente ideológico que não acrescentam valores à nossa cultura, pelo menos em sentido amplo além de uma (possível) erudição política.
Em todo este processo histórico relacionado com as questões econômicas e sociais, a Bahia está presente, tanto no sentido teórico, com a participação ativa de estudiosos como Visconde de Cayrú, Ruy Barbosa, quanto de autodidatas como Luiz Tarquínio que procurou enfatizar mais a importância prática de suas leituras que, simplesmente, a concentração em aspectos apenas teóricos.
A construção de uma trajetória do desenvolvimento brasileiro, seja para a formação e educação de jovens e adultos, seja para registro apenas histórico deve envolver os fatos que se sucederam na Bahia, tanto no sentido da questão agrícola, como os surtos das agriculturas da cana, do algodão e do cacau, como no do processo de industrialização que contribui como base para o nosso industrialismo tardio.
Pão, Paz e Liberdade
Antes de imprimir pense no Meio Ambiente e nos Custos
[i] DUMÊT, Eliana Bittencourt. Luiz Tarquínio. O semeador de Idéias. São Paulo: GENTE, 1999.
sábado, 29 de setembro de 2007
domingo, 23 de setembro de 2007
Desenvolver Pessoas para uma Administração Brasileira
6. Do Fator Agrícola ao Fator Industrial: Uma trajetória do Desenvolvimento Brasileiro (1)
No Brasil, pelo menos até agora, é absurdo falar na simples distribuição de terras e mais absurdo ainda na sua redistribuição. Para chegar a esta conclusão é suficiente ter ligeiros conhecimentos econômicos e percorrer o interior do país. A exploração racional da terra em termos econômicos não é obra individual, mesmo para o homem familiarizado com a técnica. É obra para certa classe de homens que, além da técnica, tenham vocação e qualidade de líderes e empresários, capazes de articular, orientar e conduzir outros homens, ou obra ainda para o Estado,a través de agentes suficientemente preparados e com tais características. (José Dias da Silva 1963[i]).
Saímos do século 19 sem nenhum desenvolvimento industrial efetivo, como centro motriz para se processar uma revolução industrial, apesar dos esforços orientados no sentido de se proceder a “abertura da nossa economia”, como sucedeu desde a vinda de D. João VI. Apesar de ser retratado em alguns livros e crônicas sobre nossa história como uma pessoa pusilânime, que fugia de suas responsabilidades imperiais em Portugal para não enfrentar os riscos derivados das relações duvidosas do reino português com outros países, D. João era um administrador de visão, para a sua época; e possuía um projeto para o Brasil, mesmo que os críticos não tenham percebido isto, nas entrelinhas de suas ações, durante o tempo que aqui permaneceu.
Conforme salienta Dias (1963, p.17), D. João VI foi “dos melhores administradores que o Brasil já conheceu, revolucionário mesmo para a época. Os interesses da revolução industrial inglesa, entretanto, temendo concorrência desta terra rica sob administração tecnicamente organizada, exigiam a interrupção da obra desse Rei, sendo forjada uma revolução em Portugal que exigia, por incrível que pareça, o regresso do monarca”.
Para empreender uma revolução industrial naquele momento o Brasil carecia de uma organização em seu fator agrícola (terra) e isto foi percebido por D. João VI. Quando ele abre os portos brasileiros a todas as nações amigas cria um problema conflituoso com a Inglaterra. No fundo a intenção era que, com essa abertura também chegassem aqui emigrantes abastados e empresários de indústrias com o que ficaria mais fácil se processar tanto a revolução agroeconômica quanto a industrial, possivelmente em um tempo bem menor do que aconteceu em outras regiões, inclusive queimando etapas que foram importantes para a consecução destes processos como mostra o exemplo dos Estados Unidos.
Segundo a visão de D. João VI o Brasil deveria promover o seu desenvolvimento mesmo que não pudesse contar com a ajuda externa, neste caso de Portugal, e para isto procurou se cercar de pessoas que tivessem idéias, projetos e propostas capazes de se tornarem realidade na direção desejada de crescimento e desenvolvimento. Foi assim com a questão agrária. Como salienta Dias (1963, p.19) “O primeiro plano agrário foi lançado por intermédio do botânico brasileiro, frade José Mariano da Conceição Veloso, a quem foi confiada uma oficina tipográfica e a tradução e compilação de obras de utilidade sobre agricultura. Tais obras foram editadas e espalhadas profusamente pelo Brasil”.
Para conseguir avançar com suas idéias desenvolvimentistas D. João VI contou com a ajuda em seu projeto econômico, do Visconde de Cairú, José da Silva Lisboa, que se deslocou da Bahia para o Rio de Janeiro, a fim de ocupar a cadeira de economia da nova estrutura de governança que se criava na época e que teve seu ponto ou seu marco inicial com a Carta-Régia de 28 de janeiro de 1808 que resultou na abertura dos portos às nações aliadas de Portugal quando o Brasil deixa de ser colônia e passa a incomodar outros países como a Inglaterra. O passo seguinte na busca de um equilíbrio econômico foi a criação do Banco do Brasil. Aqui vale salientar o papel da Bahia no processo político e econômico do Brasil, como faremos depois.
Pão, Paz e Liberdade
Antes de imprimir pense no Meio Ambiente e nos Custos
[i] SILVA, José Dias da. Brasil. País Ocupado. Rio de Janeiro: Gráfica Record, 1963.
No Brasil, pelo menos até agora, é absurdo falar na simples distribuição de terras e mais absurdo ainda na sua redistribuição. Para chegar a esta conclusão é suficiente ter ligeiros conhecimentos econômicos e percorrer o interior do país. A exploração racional da terra em termos econômicos não é obra individual, mesmo para o homem familiarizado com a técnica. É obra para certa classe de homens que, além da técnica, tenham vocação e qualidade de líderes e empresários, capazes de articular, orientar e conduzir outros homens, ou obra ainda para o Estado,a través de agentes suficientemente preparados e com tais características. (José Dias da Silva 1963[i]).
Saímos do século 19 sem nenhum desenvolvimento industrial efetivo, como centro motriz para se processar uma revolução industrial, apesar dos esforços orientados no sentido de se proceder a “abertura da nossa economia”, como sucedeu desde a vinda de D. João VI. Apesar de ser retratado em alguns livros e crônicas sobre nossa história como uma pessoa pusilânime, que fugia de suas responsabilidades imperiais em Portugal para não enfrentar os riscos derivados das relações duvidosas do reino português com outros países, D. João era um administrador de visão, para a sua época; e possuía um projeto para o Brasil, mesmo que os críticos não tenham percebido isto, nas entrelinhas de suas ações, durante o tempo que aqui permaneceu.
Conforme salienta Dias (1963, p.17), D. João VI foi “dos melhores administradores que o Brasil já conheceu, revolucionário mesmo para a época. Os interesses da revolução industrial inglesa, entretanto, temendo concorrência desta terra rica sob administração tecnicamente organizada, exigiam a interrupção da obra desse Rei, sendo forjada uma revolução em Portugal que exigia, por incrível que pareça, o regresso do monarca”.
Para empreender uma revolução industrial naquele momento o Brasil carecia de uma organização em seu fator agrícola (terra) e isto foi percebido por D. João VI. Quando ele abre os portos brasileiros a todas as nações amigas cria um problema conflituoso com a Inglaterra. No fundo a intenção era que, com essa abertura também chegassem aqui emigrantes abastados e empresários de indústrias com o que ficaria mais fácil se processar tanto a revolução agroeconômica quanto a industrial, possivelmente em um tempo bem menor do que aconteceu em outras regiões, inclusive queimando etapas que foram importantes para a consecução destes processos como mostra o exemplo dos Estados Unidos.
Segundo a visão de D. João VI o Brasil deveria promover o seu desenvolvimento mesmo que não pudesse contar com a ajuda externa, neste caso de Portugal, e para isto procurou se cercar de pessoas que tivessem idéias, projetos e propostas capazes de se tornarem realidade na direção desejada de crescimento e desenvolvimento. Foi assim com a questão agrária. Como salienta Dias (1963, p.19) “O primeiro plano agrário foi lançado por intermédio do botânico brasileiro, frade José Mariano da Conceição Veloso, a quem foi confiada uma oficina tipográfica e a tradução e compilação de obras de utilidade sobre agricultura. Tais obras foram editadas e espalhadas profusamente pelo Brasil”.
Para conseguir avançar com suas idéias desenvolvimentistas D. João VI contou com a ajuda em seu projeto econômico, do Visconde de Cairú, José da Silva Lisboa, que se deslocou da Bahia para o Rio de Janeiro, a fim de ocupar a cadeira de economia da nova estrutura de governança que se criava na época e que teve seu ponto ou seu marco inicial com a Carta-Régia de 28 de janeiro de 1808 que resultou na abertura dos portos às nações aliadas de Portugal quando o Brasil deixa de ser colônia e passa a incomodar outros países como a Inglaterra. O passo seguinte na busca de um equilíbrio econômico foi a criação do Banco do Brasil. Aqui vale salientar o papel da Bahia no processo político e econômico do Brasil, como faremos depois.
Pão, Paz e Liberdade
Antes de imprimir pense no Meio Ambiente e nos Custos
[i] SILVA, José Dias da. Brasil. País Ocupado. Rio de Janeiro: Gráfica Record, 1963.
sexta-feira, 14 de setembro de 2007
5. Industrialismo, Educação e Desenvolvimento
O mercado interno ampliava, assim, as possibilidades num ritmo vigoroso... A contribuição imigratória não se fazia sentir apenas pelo valor numérico, já em si importante, mas pela discriminação profissional que proporcionava, com a variedade de necessidades que a caracterizaria, uma vez que se originava em regiões cujo padrão de vida estava muito acima daquele vigorante no Brasil e cuja cultura exigia certas satisfações a que ainda permanecia imune. (Nelson Werneck SODRÉ[i]).
É a figura do empreendedor de ocasião que tem, atualmente, mais dificuldade para sobreviver no ambiente de negócios intensamente competitivo e, em sua maioria, está em negócios comerciais, seguindo o caminho tradicional iniciado lá no passado do primeiro império, porque não tem conhecimento ou experiência suficiente para se aventurar no ramo industrial, no qual o risco e a incerteza são maiores e se requer muita tecnologia. Como ainda não possuímos uma base educacional intensiva em tecnologia para aprendizagem e para a geração de produtos, o que resta mesmo é o comércio e o serviço como base para empreendimentos.
Enquanto avançam as mudanças e o processo de comercialização sai daquele sistema simples e fechado que se constituía em torno de uma freguesia bem conhecida e com baixa concorrência, com baixo risco financeiro e uma demanda quase que garantida, esse empreendedor do passado começa a se sentir acuado quando não consegue equilibrar suas contas (a síndrome do Leão), sendo obrigado a recorrer aos famosos “esquemas comerciais e financeiros para matar um leão por dia”. O problema? Desconhecimento ou falta de planejamentos geral e específicos (como o do Fluxo de Caixa), os quais poderiam reduzir os riscos em até 80%, restando apenas um leão correspondente a aproximadamente 20% administrável e não requerendo que se mate todo dia.
A situação atual é crítica, sobretudo no setor comercial, embora exista no mercado um número razoável de profissionais de administração que pode contribuir para um planejamento eficiente desses negócios. Este quadro mostra que se o nosso empresário não tentar matar um leão por dia ele será devorado (pelo leão do Estado, pelo leão dos Bancos, pelo leão da concorrência desleal, pelo leão do factoring) e com isto vai alimentando sua competência reativa e nublando o prisma de visão de mundo para um processo aberto e proativo.
Estamos tentando, nos cursos de Administração, mostrar aos jovens estudantes e futuros empreendedores idéias e caminhos que possam orientá-los a navegar nesse espaço cheio de leões. Esperamos que eles consigam assimilar todas estas metáforas e se tornem vencedores para administrar bem seus leões e colocar seus elefantes para dançar (sem esquecer de não tocar fogo na lona do circo).
Os imigrantes que se destinavam a América ou ao Brasil, faziam-no com um propósito maior na percepção de oportunidades de negócio. Os únicos valores conservadores que eles procuravam preservar relacionavam-se com a sua cultura básica, mas procuravam assimilar, logo, as culturas locais até mesmo como base para promover o relacionamento que era, já naqueles tempos, uma variável de significativa importância para o desenvolvimento de negócios.
É possível afirmar que o nascimento do industrialismo e as bases para promoção do desenvolvimento socioeconômico começam fortemente no grau ou intensidade de relacionamento que as pessoas conseguiam realizar no ambiente, no território para onde se dirigiam. A educação torna-se um ponto forte para que estes processos se concretizem tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil e isto representa um dos fatores da defasagem entre os desenvolvimentos destes países com a ressalva de que no Brasil tivemos um processo de educação tardio, enquanto lá o processo acompanhou o próprio movimento de industrialização sendo prioridade em muitos estados e regiões. Como mostra desta prioridade tem-se o surgimento de universidades, faculdades para cursos superiores que nos Estados Unidos são implantadas juntamente com a sua revolução industrial enquanto aqui somente na metade do século 20 é que começa a se consolidar a implantação de algumas universidades e cursos além do de Direito e Medicina.
Pode-se até conseguir algum desenvolvimento sem educação, mas é instável, não oferece permanência e em grande parte é exclusor, isto é, fica retido nas mãos de uma Elite de Classe Média que já vem se beneficiando das facilidades governamentais e latifundiárias e não é intensivo em indústrias (no caso brasileiro). O processo de industrialização embora apresente uma aparência de explorador dos sistemas humanos, no longo prazo se torna mais inclusivo que o de comercialização e de serviços. Isto se pode verificar pela distribuição do PIB per capita. O PIB per capita industrial mostra que existe uma tendência mais efetiva de inclusão econômica e social do que o PIB per capita comercial. Fica esta sugestão para os colegas e estudantes fazerem um estudo em suas regiões, acrescentando no estudo o PIB per capita agrícola e rural.
Pão, Paz e Liberdade
Antes de imprimir pense no Meio Ambiente e nos Custos
[i] SODRÉ, N. W. Introdução à Revolução Brasileira. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1963.
O mercado interno ampliava, assim, as possibilidades num ritmo vigoroso... A contribuição imigratória não se fazia sentir apenas pelo valor numérico, já em si importante, mas pela discriminação profissional que proporcionava, com a variedade de necessidades que a caracterizaria, uma vez que se originava em regiões cujo padrão de vida estava muito acima daquele vigorante no Brasil e cuja cultura exigia certas satisfações a que ainda permanecia imune. (Nelson Werneck SODRÉ[i]).
É a figura do empreendedor de ocasião que tem, atualmente, mais dificuldade para sobreviver no ambiente de negócios intensamente competitivo e, em sua maioria, está em negócios comerciais, seguindo o caminho tradicional iniciado lá no passado do primeiro império, porque não tem conhecimento ou experiência suficiente para se aventurar no ramo industrial, no qual o risco e a incerteza são maiores e se requer muita tecnologia. Como ainda não possuímos uma base educacional intensiva em tecnologia para aprendizagem e para a geração de produtos, o que resta mesmo é o comércio e o serviço como base para empreendimentos.
Enquanto avançam as mudanças e o processo de comercialização sai daquele sistema simples e fechado que se constituía em torno de uma freguesia bem conhecida e com baixa concorrência, com baixo risco financeiro e uma demanda quase que garantida, esse empreendedor do passado começa a se sentir acuado quando não consegue equilibrar suas contas (a síndrome do Leão), sendo obrigado a recorrer aos famosos “esquemas comerciais e financeiros para matar um leão por dia”. O problema? Desconhecimento ou falta de planejamentos geral e específicos (como o do Fluxo de Caixa), os quais poderiam reduzir os riscos em até 80%, restando apenas um leão correspondente a aproximadamente 20% administrável e não requerendo que se mate todo dia.
A situação atual é crítica, sobretudo no setor comercial, embora exista no mercado um número razoável de profissionais de administração que pode contribuir para um planejamento eficiente desses negócios. Este quadro mostra que se o nosso empresário não tentar matar um leão por dia ele será devorado (pelo leão do Estado, pelo leão dos Bancos, pelo leão da concorrência desleal, pelo leão do factoring) e com isto vai alimentando sua competência reativa e nublando o prisma de visão de mundo para um processo aberto e proativo.
Estamos tentando, nos cursos de Administração, mostrar aos jovens estudantes e futuros empreendedores idéias e caminhos que possam orientá-los a navegar nesse espaço cheio de leões. Esperamos que eles consigam assimilar todas estas metáforas e se tornem vencedores para administrar bem seus leões e colocar seus elefantes para dançar (sem esquecer de não tocar fogo na lona do circo).
Os imigrantes que se destinavam a América ou ao Brasil, faziam-no com um propósito maior na percepção de oportunidades de negócio. Os únicos valores conservadores que eles procuravam preservar relacionavam-se com a sua cultura básica, mas procuravam assimilar, logo, as culturas locais até mesmo como base para promover o relacionamento que era, já naqueles tempos, uma variável de significativa importância para o desenvolvimento de negócios.
É possível afirmar que o nascimento do industrialismo e as bases para promoção do desenvolvimento socioeconômico começam fortemente no grau ou intensidade de relacionamento que as pessoas conseguiam realizar no ambiente, no território para onde se dirigiam. A educação torna-se um ponto forte para que estes processos se concretizem tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil e isto representa um dos fatores da defasagem entre os desenvolvimentos destes países com a ressalva de que no Brasil tivemos um processo de educação tardio, enquanto lá o processo acompanhou o próprio movimento de industrialização sendo prioridade em muitos estados e regiões. Como mostra desta prioridade tem-se o surgimento de universidades, faculdades para cursos superiores que nos Estados Unidos são implantadas juntamente com a sua revolução industrial enquanto aqui somente na metade do século 20 é que começa a se consolidar a implantação de algumas universidades e cursos além do de Direito e Medicina.
Pode-se até conseguir algum desenvolvimento sem educação, mas é instável, não oferece permanência e em grande parte é exclusor, isto é, fica retido nas mãos de uma Elite de Classe Média que já vem se beneficiando das facilidades governamentais e latifundiárias e não é intensivo em indústrias (no caso brasileiro). O processo de industrialização embora apresente uma aparência de explorador dos sistemas humanos, no longo prazo se torna mais inclusivo que o de comercialização e de serviços. Isto se pode verificar pela distribuição do PIB per capita. O PIB per capita industrial mostra que existe uma tendência mais efetiva de inclusão econômica e social do que o PIB per capita comercial. Fica esta sugestão para os colegas e estudantes fazerem um estudo em suas regiões, acrescentando no estudo o PIB per capita agrícola e rural.
Pão, Paz e Liberdade
Antes de imprimir pense no Meio Ambiente e nos Custos
[i] SODRÉ, N. W. Introdução à Revolução Brasileira. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1963.
sexta-feira, 7 de setembro de 2007
Desenvolver Pessoas para uma Administração Brasileira
4. O medo da Industrialização
As nações em processo de industrialização têm um senso de urgência – umas mais do que outras. Elas perceberam, como os líderes japoneses da restauração Meiji, que a tecnologia industrial avassala; ou a domina ou são aniquilados. (...) As sociedades não-industriais tendem fatalmente às posições mais insignificantes no concerto das nações. (Clark KERR et al.).
A resistência ao processo de industrialização no Brasil, desde o Império até agora, é muito forte. Existe um medo de enfrentar a incerteza, o que ocasiona uma concentração de energia muito intensa no fator terra como base para a sobrevivência econômica e como a forma mais garantida de se prosperar, o que dificulta a concretização mais rápida das etapas do desenvolvimento no caso brasileiro. Esta é uma crença que ainda perdura entre as famílias urbanas e rurais, sobretudo aquelas de classe média.
Aqui predominava, senão em forma plena pelo menos diluída entre os poderosos senhores de engenho, fazendeiros produtores de cana, café e algodão, os efeitos do Administrador Colonial como Elite dominante, enquanto se formava com alguma força a Elite Dinástica e Patrimonialista que vem suceder com os mesmos ranços, defeitos e prepotências à primeira, bem como formar as bases, a partir de famílias dissidentes, da Elite Nacionalista que vai assumir, pouco a pouco, os destinos políticos do país a partir da década de 30 do século passado.
Somente no alvorecer da Segunda República, entre os anos 30 e 50 do Século XX, é que começa a se firmar a Elite Classe Média, com uma predominância de indivíduos procedentes do nível rural latifundiário, que amadurece com a autonomia que os pais proporcionam aos filhos, em especial aqueles que não quiseram prosseguir estudos e preferiram fazer sua independência no setor comercial e de serviços, revelando, assim, uma tímida preparação para o processo de industrialização na última etapa do regime imperial, cujo processo estava quase todo nas mãos de estrangeiros ou filhos de estrangeiros.
As elites americanas, ao contrário das brasileiras, perceberam cedo que o salto para o futuro estava no processo de industrialização, de modo que procuraram disseminar esta visão em sua cultura e sistema educacional tão logo se tornaram independentes. A terra era um fator importante e foi distribuída em sentido agrário muito cedo o que não implicava em um entrave para o desenvolvimento (apesar das lutas entre colonos e entre estes e os empresários de ferrovias), enquanto no caso brasileiro a concentração nas mãos de poucos colonos atravessou o tempo e permanece assim concentrada e com poucas mudanças daquilo que geograficamente se apresentava há duzentos anos passados. Ainda assim, a arrancada dos Estados Unidos só começa de modo firme com a sua segunda revolução industrial (por volta de 1840 de acordo com alguns historiadores da economia. Ver, em especial ROSTOW[i]).
O Brasil só começa, efetivamente, a promover ou demonstrar sinais de arranco para o processo industrial depois da Segunda Guerra (mais de um século depois dos Estados Unidos), assim mesmo de forma tímida em nível propriamente nacional, embora a sociedade econômica (as elites) facilitasse e promovesse meios e condições políticas para a entrada de indústrias estrangeiras como uma forma de redução das importações e facilitação das exportações de primários, desde que não ousassem avançar para suas áreas agrícolas e de domínio latifundiário. Isto basicamente no governo de JK quando na ânsia de promover o desenvolvimento subestima-se a indústria de transformação e de bens e utilidades para beneficiar a automobilística pesada, com o que se promove o sucateamento do sistema ferroviário em benefício do rodoviário como base logística para o país.
O brasileiro médio sonhava (e ainda sonha) com um “pedaço de terra” para morar e como garantia em relação aos possíveis transtornos futuros, refletindo a baixa confiabilidade no Estado Previdência que cada dia mais se torna improdutivo e deficiente em seus papéis administrativos e sociais, levando a classe média a um clima de incerteza em relação a esses futuros. Deste modo, o espaço para empreender negócios no país fica aberto e poucos são os que arriscam a empreender a partir da busca de oportunidades.
Vale salientar que a fuga à incerteza tende a levar as pessoas que têm algum recurso para investimento a aplicarem em imóveis que, mesmo sendo um bem de difícil troca (baixa liquidez) ainda representa um bem com certo poder para aval em circunstâncias críticas (alta rentabilidade).
Aqueles que se aventuraram no passado a empreender negócios tinham, em termos relativos, alguma descendência estrangeira, quando não eram emigrantes que vieram para aqui fugidos de alguma ameaça na Europa. Estes serviram, até certo ponto, de espelho para que alguns indivíduos locais empreendessem negócios, embora na base do senso comum, da imitação ou da necessidade de se manter (empreendedorismo de subsistência) quando as condições de trabalho rareavam nas regiões metropolitanas ou mesmo nas cidades mais populosas dos estados brasileiros. Naqueles tempos o mercado interno era fracamente competitivo e a quantidade de produtos se limitava às utilidades básicas para a sobrevivência e a sustentabilidade doméstica, não exigindo uma maior capacidade administrativa. Vale dizer, os gestores ainda não matavam leões e nem precisavam apagar incêndios. Eram o que chamo de Empreendedores de Ocasião.
Pão, Paz e Liberdade
Antes de imprimir pense no Meio Ambiente e nos Custos
[i] ROSTOW, W. W. Etapas do desenvolvimento econômico. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.
As nações em processo de industrialização têm um senso de urgência – umas mais do que outras. Elas perceberam, como os líderes japoneses da restauração Meiji, que a tecnologia industrial avassala; ou a domina ou são aniquilados. (...) As sociedades não-industriais tendem fatalmente às posições mais insignificantes no concerto das nações. (Clark KERR et al.).
A resistência ao processo de industrialização no Brasil, desde o Império até agora, é muito forte. Existe um medo de enfrentar a incerteza, o que ocasiona uma concentração de energia muito intensa no fator terra como base para a sobrevivência econômica e como a forma mais garantida de se prosperar, o que dificulta a concretização mais rápida das etapas do desenvolvimento no caso brasileiro. Esta é uma crença que ainda perdura entre as famílias urbanas e rurais, sobretudo aquelas de classe média.
Aqui predominava, senão em forma plena pelo menos diluída entre os poderosos senhores de engenho, fazendeiros produtores de cana, café e algodão, os efeitos do Administrador Colonial como Elite dominante, enquanto se formava com alguma força a Elite Dinástica e Patrimonialista que vem suceder com os mesmos ranços, defeitos e prepotências à primeira, bem como formar as bases, a partir de famílias dissidentes, da Elite Nacionalista que vai assumir, pouco a pouco, os destinos políticos do país a partir da década de 30 do século passado.
Somente no alvorecer da Segunda República, entre os anos 30 e 50 do Século XX, é que começa a se firmar a Elite Classe Média, com uma predominância de indivíduos procedentes do nível rural latifundiário, que amadurece com a autonomia que os pais proporcionam aos filhos, em especial aqueles que não quiseram prosseguir estudos e preferiram fazer sua independência no setor comercial e de serviços, revelando, assim, uma tímida preparação para o processo de industrialização na última etapa do regime imperial, cujo processo estava quase todo nas mãos de estrangeiros ou filhos de estrangeiros.
As elites americanas, ao contrário das brasileiras, perceberam cedo que o salto para o futuro estava no processo de industrialização, de modo que procuraram disseminar esta visão em sua cultura e sistema educacional tão logo se tornaram independentes. A terra era um fator importante e foi distribuída em sentido agrário muito cedo o que não implicava em um entrave para o desenvolvimento (apesar das lutas entre colonos e entre estes e os empresários de ferrovias), enquanto no caso brasileiro a concentração nas mãos de poucos colonos atravessou o tempo e permanece assim concentrada e com poucas mudanças daquilo que geograficamente se apresentava há duzentos anos passados. Ainda assim, a arrancada dos Estados Unidos só começa de modo firme com a sua segunda revolução industrial (por volta de 1840 de acordo com alguns historiadores da economia. Ver, em especial ROSTOW[i]).
O Brasil só começa, efetivamente, a promover ou demonstrar sinais de arranco para o processo industrial depois da Segunda Guerra (mais de um século depois dos Estados Unidos), assim mesmo de forma tímida em nível propriamente nacional, embora a sociedade econômica (as elites) facilitasse e promovesse meios e condições políticas para a entrada de indústrias estrangeiras como uma forma de redução das importações e facilitação das exportações de primários, desde que não ousassem avançar para suas áreas agrícolas e de domínio latifundiário. Isto basicamente no governo de JK quando na ânsia de promover o desenvolvimento subestima-se a indústria de transformação e de bens e utilidades para beneficiar a automobilística pesada, com o que se promove o sucateamento do sistema ferroviário em benefício do rodoviário como base logística para o país.
O brasileiro médio sonhava (e ainda sonha) com um “pedaço de terra” para morar e como garantia em relação aos possíveis transtornos futuros, refletindo a baixa confiabilidade no Estado Previdência que cada dia mais se torna improdutivo e deficiente em seus papéis administrativos e sociais, levando a classe média a um clima de incerteza em relação a esses futuros. Deste modo, o espaço para empreender negócios no país fica aberto e poucos são os que arriscam a empreender a partir da busca de oportunidades.
Vale salientar que a fuga à incerteza tende a levar as pessoas que têm algum recurso para investimento a aplicarem em imóveis que, mesmo sendo um bem de difícil troca (baixa liquidez) ainda representa um bem com certo poder para aval em circunstâncias críticas (alta rentabilidade).
Aqueles que se aventuraram no passado a empreender negócios tinham, em termos relativos, alguma descendência estrangeira, quando não eram emigrantes que vieram para aqui fugidos de alguma ameaça na Europa. Estes serviram, até certo ponto, de espelho para que alguns indivíduos locais empreendessem negócios, embora na base do senso comum, da imitação ou da necessidade de se manter (empreendedorismo de subsistência) quando as condições de trabalho rareavam nas regiões metropolitanas ou mesmo nas cidades mais populosas dos estados brasileiros. Naqueles tempos o mercado interno era fracamente competitivo e a quantidade de produtos se limitava às utilidades básicas para a sobrevivência e a sustentabilidade doméstica, não exigindo uma maior capacidade administrativa. Vale dizer, os gestores ainda não matavam leões e nem precisavam apagar incêndios. Eram o que chamo de Empreendedores de Ocasião.
Pão, Paz e Liberdade
Antes de imprimir pense no Meio Ambiente e nos Custos
[i] ROSTOW, W. W. Etapas do desenvolvimento econômico. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.
sábado, 1 de setembro de 2007
Desenvolver Pessoas Para uma Administração Brasileira
3. A República Reativa
De há muito que esta pergunta anda no ar em busca de uma resposta em grande: como foi possível aos Estados Unidos, país mais novo do que o Brasil e menor em superfície continental contínua, realizar o progresso quase milagroso que realizaram e chegar aos nossos dias à vanguarda das nações, como a prodigiosa realidade do presente, sob muitos aspectos mais estupenda e prodigiosa realidade de todos os tempos, quando o nosso país, com mais de um século de antecedência histórica, ainda se apresenta, mesmo à luz das interpretações e profecias mais otimistas, apenas como o incerto país do futuro? Viana MOOG[i].
Faço sempre esta pergunta nos primeiros dias de aula, tanto de TGA como de Administração Brasileira, de Empreendedorismo, de Marketing e de Administração Estratégica. Até agora não consegui que um estudante respondesse com clareza ou de forma completa a esta pergunta. Não sou americanista (ao contrário sou contra o capitalismo selvagem) nem costumo fazer apologia do desenvolvimento segundo o capitalismo monopolista americano, mas uma coisa deve ser respeitada e isto faz parte daqueles que não fazem apenas criticas, mas comparações: os americanos estavam mais preparados que os brasileiros para o desenvolvimento. Enquanto o empresário brasileiro gerencia sua empresa apagando incêndio ou tentando matar um leão por dia, o empresário americano gerencia sua empresa administrando o incêndio e o leão por dia ou procurando colocar o elefante para dançar[ii].
Um exemplo que uso para mostrar que competência empresarial é administrar um leão por dia é do Monsieur Eleuthère Du Pont. Este senhor se defrontou no ano de 1790 com a pressão e a perseguição promovida aos aristocratas, empresários e empreendedores em França pela revolução francesa, que foi bem pior que os leões que aporrinham os nossos gerentes reativos de hoje, e teve que fugir às pressas abandonando seus negócios, os privilégios de uma vida aristocrática, emigrando para a América. Na sua fuga o Senhor Du Pont “carregou consigo duas valiosas propriedades – uma tecnologia e uma idéia. A tecnologia serviu para fazer a melhor pólvora do Novo Mundo. Du Pont estabeleceu uma fábrica de pólvora às margens do Rio Branywine, em Wilmington, semente do que é hoje a sétima maior companhia industrial e a mais renomada fabricante de produtos químicos dos Estados Unidos” [iii] e a idéia era construir um negócio no qual as pessoas se sentissem felizes vivendo um trabalho sem acidentes. Para provar isto ele construiu sua residência colada com o muro da fábrica de pólvora.
Com este exemplo do Senhor Du Pont, procuro esclarecer e mostrar caminhos para que os estudantes se enveredem com mais ousadia pelos labirintos da aprendizagem e tentem responder perguntas como as que aqui formulo. Não existe, ainda, uma empresa no Brasil que se iguale a E. I. DuPont de Nemours & Company Inc. Em 1790 o Brasil não possuía nenhum processo industrial de peso além dos obsoletos engenhos de açúcar que estavam “caindo das pernas” pela má administração dos latifundiários e senhores de engenho e este processo agro-industrial não era tão representativo como economia para receber a classificação como uma revolução.
Outro diferencial que procuro mostrar aos estudantes é que os emigrantes europeus que aportaram na América, quase em sua maioria eram alfabetizados, tinham alguma formação média ou superior e provinham de atividades industriais ou mesmo de comercialização de ponta (para a época), enquanto os que aportaram aqui no Brasil eram em sua maioria analfabetos, fugitivos mercenários ou prisioneiros escravizados da África ou mesmo da Europa.
Assim, procuro mostrar aos estudantes que os Estados Unidos têm História e o Brasil tem estória – e isto faz uma significativa diferença no momento de concorrer no mercado internacional e, até, no nacional quando produtos chineses, coreanos, japoneses, vietnamitas, indianos estão tomando conta do mercado doméstico – e é essa estória que nossos professores, pobremente informados (ou até desinteressados) ou ideologicamente enquadrados procuram transmitir para nossas crianças, a qual não me parece suficiente para que elas possam aprender a ser cidadãos.
Enquanto os Estados Unidos começavam a caminhar para a modernidade segundo um projeto republicano proativo, o Brasil preferiu manter-se na reatividade imperial/republicana, o que dificultou o nascimento de movimentos revolucionários de peso político, econômico e social. A Elite de Classe Média[iv] só começa a mostrar algum interesse pela industrialização, além da espera passiva pelas ações do Estado Imperial e depois Republicano, nas últimas décadas do Século XIX e começo do Século XX, começando com o Visconde de Mauá. Aqui começam os primeiros passos para um processo de industrialização dentro de uma República Reativa, positivista, dominada ainda pela terra como fator econômico de peso.
Vamos continuar com o tema.
Pão, Paz e Liberdade
Antes de imprimir pense no Meio Ambiente e nos Custos
[i] MOOG, Vianna. Bandeirantes e Pioneiros, VOL.I. Rio de Janeiro, Delta, 1966. Vol. III Obras Completas, Prefácio, p.15.
[ii] BELASCO, James A. Ensinando o Elefante a Dançar. Rio de Janeiro, Campus/Elsevier, 2005.
[iii] HARMON, F. G, e JACOBS, G. A Diferença Vital. São Paulo, Maltese, 1992.
[iv] Sobre as Elites Industrializantes ver: KERR, C. et al. Industrialismo e Sociedade Industrial. Rio de Janeiro, USAID, 1963.
De há muito que esta pergunta anda no ar em busca de uma resposta em grande: como foi possível aos Estados Unidos, país mais novo do que o Brasil e menor em superfície continental contínua, realizar o progresso quase milagroso que realizaram e chegar aos nossos dias à vanguarda das nações, como a prodigiosa realidade do presente, sob muitos aspectos mais estupenda e prodigiosa realidade de todos os tempos, quando o nosso país, com mais de um século de antecedência histórica, ainda se apresenta, mesmo à luz das interpretações e profecias mais otimistas, apenas como o incerto país do futuro? Viana MOOG[i].
Faço sempre esta pergunta nos primeiros dias de aula, tanto de TGA como de Administração Brasileira, de Empreendedorismo, de Marketing e de Administração Estratégica. Até agora não consegui que um estudante respondesse com clareza ou de forma completa a esta pergunta. Não sou americanista (ao contrário sou contra o capitalismo selvagem) nem costumo fazer apologia do desenvolvimento segundo o capitalismo monopolista americano, mas uma coisa deve ser respeitada e isto faz parte daqueles que não fazem apenas criticas, mas comparações: os americanos estavam mais preparados que os brasileiros para o desenvolvimento. Enquanto o empresário brasileiro gerencia sua empresa apagando incêndio ou tentando matar um leão por dia, o empresário americano gerencia sua empresa administrando o incêndio e o leão por dia ou procurando colocar o elefante para dançar[ii].
Um exemplo que uso para mostrar que competência empresarial é administrar um leão por dia é do Monsieur Eleuthère Du Pont. Este senhor se defrontou no ano de 1790 com a pressão e a perseguição promovida aos aristocratas, empresários e empreendedores em França pela revolução francesa, que foi bem pior que os leões que aporrinham os nossos gerentes reativos de hoje, e teve que fugir às pressas abandonando seus negócios, os privilégios de uma vida aristocrática, emigrando para a América. Na sua fuga o Senhor Du Pont “carregou consigo duas valiosas propriedades – uma tecnologia e uma idéia. A tecnologia serviu para fazer a melhor pólvora do Novo Mundo. Du Pont estabeleceu uma fábrica de pólvora às margens do Rio Branywine, em Wilmington, semente do que é hoje a sétima maior companhia industrial e a mais renomada fabricante de produtos químicos dos Estados Unidos” [iii] e a idéia era construir um negócio no qual as pessoas se sentissem felizes vivendo um trabalho sem acidentes. Para provar isto ele construiu sua residência colada com o muro da fábrica de pólvora.
Com este exemplo do Senhor Du Pont, procuro esclarecer e mostrar caminhos para que os estudantes se enveredem com mais ousadia pelos labirintos da aprendizagem e tentem responder perguntas como as que aqui formulo. Não existe, ainda, uma empresa no Brasil que se iguale a E. I. DuPont de Nemours & Company Inc. Em 1790 o Brasil não possuía nenhum processo industrial de peso além dos obsoletos engenhos de açúcar que estavam “caindo das pernas” pela má administração dos latifundiários e senhores de engenho e este processo agro-industrial não era tão representativo como economia para receber a classificação como uma revolução.
Outro diferencial que procuro mostrar aos estudantes é que os emigrantes europeus que aportaram na América, quase em sua maioria eram alfabetizados, tinham alguma formação média ou superior e provinham de atividades industriais ou mesmo de comercialização de ponta (para a época), enquanto os que aportaram aqui no Brasil eram em sua maioria analfabetos, fugitivos mercenários ou prisioneiros escravizados da África ou mesmo da Europa.
Assim, procuro mostrar aos estudantes que os Estados Unidos têm História e o Brasil tem estória – e isto faz uma significativa diferença no momento de concorrer no mercado internacional e, até, no nacional quando produtos chineses, coreanos, japoneses, vietnamitas, indianos estão tomando conta do mercado doméstico – e é essa estória que nossos professores, pobremente informados (ou até desinteressados) ou ideologicamente enquadrados procuram transmitir para nossas crianças, a qual não me parece suficiente para que elas possam aprender a ser cidadãos.
Enquanto os Estados Unidos começavam a caminhar para a modernidade segundo um projeto republicano proativo, o Brasil preferiu manter-se na reatividade imperial/republicana, o que dificultou o nascimento de movimentos revolucionários de peso político, econômico e social. A Elite de Classe Média[iv] só começa a mostrar algum interesse pela industrialização, além da espera passiva pelas ações do Estado Imperial e depois Republicano, nas últimas décadas do Século XIX e começo do Século XX, começando com o Visconde de Mauá. Aqui começam os primeiros passos para um processo de industrialização dentro de uma República Reativa, positivista, dominada ainda pela terra como fator econômico de peso.
Vamos continuar com o tema.
Pão, Paz e Liberdade
Antes de imprimir pense no Meio Ambiente e nos Custos
[i] MOOG, Vianna. Bandeirantes e Pioneiros, VOL.I. Rio de Janeiro, Delta, 1966. Vol. III Obras Completas, Prefácio, p.15.
[ii] BELASCO, James A. Ensinando o Elefante a Dançar. Rio de Janeiro, Campus/Elsevier, 2005.
[iii] HARMON, F. G, e JACOBS, G. A Diferença Vital. São Paulo, Maltese, 1992.
[iv] Sobre as Elites Industrializantes ver: KERR, C. et al. Industrialismo e Sociedade Industrial. Rio de Janeiro, USAID, 1963.
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