domingo, 19 de outubro de 2008

Desenvolvimento Humano e Desenvolvimento Econômico IV

As discussões do momento giram em torno do crash em andamento de Wall Street e sua repercussão na economia mundial. Os especuladores, principalmente, estão com as barbas de molho porque a quebradeira que está em andamento desde o final do século 20, e que não foi bem percebido em seus detalhes porque a mamata da grana virtual era quase que garantida e a ilusão do permanente estava vagando em todas aquelas cabeças, está amedrontando a todos.

Não gosto muito de meter meu nariz em assuntos de economia financeira, embora precise realizar análises de cenários neste campo para completar projetos estratégicos. Contudo, como a conversa que rola no momento entre meus jovens estudantes é sobre a quebra de bancos, e assuntos correlatos vou reeditar aqui um artigo que escrevi em 2001 que me parece está ainda atual. Vamos ao artigo:

DA SERIEDADE À ESPECULAÇÃO: Os descaminhos atuais da Economia Global[i]

Estamos observando uma interessante fase de turbulências que têm gerado sérias mudanças no processo econômico-financeiro mundial. Estas mudanças não podem (ou não devem) ser responsabilizadas a esse ou aquele modo de produção em particular, como geralmente vem sucedendo com os “críticos” de sistemas políticos, sobretudo aqueles de partidos opostos (ou mesmo pelos dissidentes dentro de um mesmo partido) que saem à procura de culpados para caçar como troféu para seus projetos de chegada ao poder. (De acordo com a Economia Política Clássica Marxista, os Modos de Produção são: comunal-primitivo; escravista; feudal; capitalista; e comunista).

Estas mudanças teriam que acontecer, mas cedo ou mais tarde, em todo o Planeta, porque o sistema capitalista não tem estrutura para suportar por longo tempo a especulação financeira, sobretudo quando uma boa parte dos mercados está caminhando numa direção deflacionária em substituição a atual fase inflacionária que dominou por mais de vinte anos na maioria dos países, em especial nos de economia emergente, como o Brasil. Ainda mais, não há como suportar a ditadura bancária especulativa prolongada e imposta pelo capital internacional virtual e volátil por um longo tempo, sem que se procure estimulá-lo a se transformar em capital fixo.

Este quadro especulativo que se espalhou na economia global, possivelmente, tem por trás alguns grupos capitalistas irresponsáveis, mas isto não nos autoriza a nomeá-los, agora, no auge da explosão dos mercados, como sendo os culpados únicos, uma vez que, à sombra desses especuladores muitas empresas tiveram, de alguma maneira, alguns benefícios, mesmo que rápidos e voláteis. O que interessa, neste quadro analítico é, pois, absorver o máximo de aprendizagem, a fim de podermos consolidar a economia local e nacional.

Existem, em nível internacional (como sabemos existir também em nível local), os indivíduos ou grupo de indivíduos que “trabalham” apenas com dinheiro (tanto em sentido oficial, formal, como clandestino, informal), para os quais o “produto final” de seus negócios é resultante da aplicação de suas reservas de capital (dinheiro); ou seja, compram e vendem dinheiro no mercado e isto se faz tanto através de bolsas de valores como através de corretoras e bancos que agenciam para esses grupos a aplicação no sistema de trocas.

Vale salientar que o sistema de bolsas de valores tem por finalidade uma troca (geralmente temporária, e muitas vezes numa dimensão temporal de um dia, um mês e, às vezes, um ano) de dinheiro por títulos e papéis financeiros que são emitidos pela parte interessada em captar recursos em montante elevado, seja para atender a fins de investimento, seja até para especular com mercadorias e ativos diversos dentro de suas atividades empresariais.

Em suma, a bolsa é um centro de troca temporária, no qual alguém (ou grupo) necessita de dinheiro real, rápido, e oferece em respaldo títulos que têm como cobertura os valores patrimoniais de seus negócios. Devemos considerar que essa progressão temporal relaciona-se com a seriedade e a confiabilidade que uma empresa geradora de títulos (ações) oferece durante o seu ano operacional, o que vem expresso pelos resultados publicados no seu balanço patrimonial.

Outros fatores também são considerados, além destes que compõem a chamada Teoria da Firma (Microeconomia), hoje, dentro deste processo econômico-financeiro, entre os quais se encontram os aspectos macroeconômicos, político-econômicos, socioeconômicos e legais do local (município, estado, país) onde se encontram instaladas essas unidades produtivas captadoras de dinheiro, além de se estender este processo ao próprio Estado que atua como facilitador, regulador e até como especulador dentro do grande sistema de valores mobiliários (SVM) através da gestão da chamada comissão de valores mobiliários (CVM), do Banco Central e outros organismos fazendários do estado.

Na medida em que a confiabilidade se reduza nesses aspectos macroeconômicos, aumenta a fuga de dinheiro especulativo, chamado também de capital volátil e de curto prazo, e isto tem ocorrido quase que diariamente no mundo dos negócios financeiros com maior ou menor intensidade, especialmente a partir da queda da economia mexicana em 1994.

(...).

Em linhas gerais este é o quadro principal desta situação que vai da seriedade à especulação financeira. Mas outros fatos são interessantes para o analista considerar antes de sair por aí apregoando que A ou B são culpados disso ou daquilo em termos de economia (atualmente os grandes culpados são o neoliberalismo e a globalização da economia, os quais são apenas partes do grande problema).

Outros aspectos, portanto, que identificamos nos cenários estudados além do tempo de aplicação dos recursos referem-se às modalidades ou formas de aplicação desses recursos em relação ao conteúdo patrimonial das instituições. As aplicações financeiras compõem dois grandes tipos de Ativos: um de curto prazo que, em gestão estratégica financeira costumamos classificar de contas cíclicas e contas erráticas e que estão posicionadas nos níveis Tático e Operacional do Balanço Patrimonial e outro de longo prazo que também pode ser chamado de Ativo Fixo ou conta estratégica.

Pois bem, para fecharmos a discussão, podemos dizer que, aliado aos demais aspectos que consolidam a especulação financeira internacional nos países, encontramos a aplicação de dinheiro (capital financeiro) em ativos de curto prazo (ACP) e ativos de longo prazo (ACL) que em algumas situação são chamados de permanentes. Isto é válido para uma empresa, um município, um estado e um país.

Sempre que ACP (maior do que) ACL as instituições ficam vulneráveis às mudanças bruscas de valores financeiros, econômicos, políticos, legais, sociais que ocorrem em uma região e isto contribui para que o dinheiro volátil saia rapidamente do mercado, sobretudo hoje com a rapidez da informação e as facilidades de comunicação dentro da Aldeia Global. Esta situação varia de país para país e no caso específico do Brasil a queda (ainda) não foi brusca ou grande porque (felizmente) a situação apresenta-se, possivelmente, dentro de um nível de relação do tipo ACP (menor ou igual a) ALP e existe, ainda, um pouco de confiabilidade política e social (seriedade) na moeda e nos projetos de médio e longo prazo do governo, malgrado os apelidos que lhe dêem aqui dentro.

Por isso, a situação entre nós embora seja delicada não é de provocar grande susto, pelo menos por enquanto ou enquanto esses “políticos” de favores não jogarem água no fogareiro deixando de promover as mudanças legais que carecemos para manter ou reforçar a credibilidade do país diante dos investidores internacionais, mesmo aqueles especulativos os quais nunca deixarão de existir.

Na próxima postagem irei publicar um artigo de Carlos Hilsdorf.

Pão, Paz e Liberdade
Antes de imprimir pense no Meio Ambiente e nos Custos
Educação: a resposta certa ao trabalho infantil
(OIT)
Mensagem ICA: “Luta contra a mudança climática através das cooperativas”
Campaña Cooperativa Global Contra la Pobreza: Cooperando Fuera de la Pobreza
Leia também o Blog:
http://blogs.universia.com.br/dialogos

[i] Publicado em 2001 no Jornal O Município em Vitória da Conquista-BA

2 comentários:

Anônimo disse...

OI!Jovino!
Passei pelo teu Blog.Li teus artigos e afirmo-te que ,iluminaram minha mente fazendo-me entender um pouco da atual conjuntura Econômica Mundial!
Teus artigos são muito bem escritos.
Parabéns!!!

Orlando G. da Silva disse...

Olá Jovino,

cheguei até aqui pela dica do Enoch

Pulei o texto de liderança e li este. Excelente contextualização do problema.

Assinei o feed do blog e estou acompanhando.
Saudações.