Parte III – A Corrente do Menor Preço e a Qualidade Integral: A Gestão conduz o Barco, a Administração constrói o Mapa da Viagem
- É assim que vejo nosso negócio. Se cuidamos da nossa equipe, os clientes internos, e fazemos tudo para satisfazer os clientes externos, oferecendo as mercadorias que eles desejam e tornando sua visita às nossas lojas a melhor experiência possível, os lucros vêm como conseqüência. (Do diálogo entre Mike e Peter, in O Sabor da Qualidade, 2006, p.48).
A minha análise sobre as crises de conhecimento, de dignidade, de ética, de respeito ao consumidor e ao cidadão trabalhador e colaborador e de respeito à natureza começa pela intensidade com que algumas vozes importantes são escutadas (não meramente ouvidas) dentro de uma organização. Aqui começa no meu conceito o que Subir Chowdhury chama de O Sabor da Qualidade[i] que tem como uma das propostas, no caso da Qualidade Integral, trazer a Voz do Cliente e a Voz da Natureza para dentro do Sistema Negocial (o qual é composto por um Sistema Integrador e outro Sistema Integrado) diminuindo, cada vez mais a defasagem (variabilidade) que existe entre elas e a Voz do Processo.
Difícil fazer isto? Certamente que é difícil porque seria uma mudança radical de paradigma. Poderíamos chama isto de Reengenharia do Comportamento Empresarial (e não apenas do processo) que deveria sempre se antecipar ao que chamo de Reengenharia da Estrutura Empresarial. Seria mexer no velho e obsoleto DNA da gestão baseada no pragmatismo do management e acelerar o novo DNA da Administração, mostrando, assim que administrar é mais amplo e mais complexo do que gerir.
Isto implica que a gestão tem dimensão (ação) bem menor, mas atividade bem maior que a administração e aqui reside um dos temas que, com grande probabilidade (ou possibilidade?) traduz o começo da crise, a morte de grande número de empresas, inclusive de velhas e tradicionais e robustas empresas, qual seja o de que a Gestão não é suficiente para promover a multiplicação dos pães (utilizando aqui uma metáfora bíblica em relação ao investimento de recursos financeiros, materiais e temporais para tornar um negócio eficiente e lucrativo). Sem a Administração a Gestão é uma mera ferramenta isolada e sem consistência ou apenas um timão sem um marinheiro competente para conduzir o barco empresarial.
Com relação a esta última premissa, qual seja: administração sem gestão ou gestão sem administração tenho debatido muito com os estudantes procurando mostrar-lhes quais os méritos de cada uma e como se processa a interdependência que ajuda a consolidar o processo de desenvolvimento de negócios.
Através de uma linguagem (quase) vulgar – porque é simples demais – eu explico que: a Gestão conduz o barco enquanto a Administração elabora e/ou constrói o mapa da viagem que servirá de guia estratégico para a condução do barco. O Gerente conduz o barco; é o gestor da Escola de Samba e, em certo sentido, também é responsável por parte significativa das atividades do Time de Vôlei, enquanto que o Administrador conduz o Circo e a uma pequena parte do Time de Vôlei (e aqui está a minha metáfora para mostrar aos estudantes a estrutura de uma empresa. Para mim uma empresa só deve ter três níveis diretivos e não mais).
Assim, os estudantes (e também alguns profissionais) começam a entender minha linguagem sobre uma administração sem gestão, a qual de algum modo está relacionada com a intensidade com se promove dentro da organização o esforço de empowerment através dos colaboradores, entre outras ferramentas ou técnicas ou princípios de ação. Por outro lado, a gestão não pode ou não deve prescindir da administração sob pena de se colocar pessoas inexperientes ou sem habilidade e qualificação suficientes para elaborar os mapas de viagem que conduzirão a empresa (o negócio) para onde desejamos estar e o barco (o negócio) pode chocar-se com os arrecifes da incompetência geral (política, administrativa, econômica, contábil e, pior ainda, cultural).
Ou seja, considerando as perguntas propostas pela Administração Estratégica em sua etapa de diagnóstico: Onde estávamos? Onde estamos agora? Onde desejamos chegar?, as quais envolvem tanto a administração quanto a gestão, tem-se que as respostas começam sempre pela administração quando se está fazendo um diagnóstico sério e comprometido com a resolução das crises organizacionais e não pela gestão que é o lado técnico e de execução dos trabalhos.
Para se conseguir realizar com efetividade, segurança, ética e qualidade a viagem negocial é necessário, a partir de agora, ouvir com precisão (isto é escutar) as vozes mais importantes do sistema econômico e empresarial que discutirei no próximo bloco.
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[i] CHOWDHURY, S. O Sabor da Qualidade. Rio de Janeiro: Sextante, 2006.
domingo, 24 de maio de 2009
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