Segunda Discussão: O Declínio do Capitalismo. O Fim da Economia de Capital
Um olhar sobre as várias crises que vêm se desdobrando desde 1973 com o primeiro choque do petróleo me conduziu a reflexões que não combinam com as de alguns teóricos sobre o desempenho econômico e financeiro do sistema capitalista ocidental, levando-me a uma discussão que culmina com o declínio deste sistema no Ocidente e em alguns países do Oriente.
O fim do capitalismo, como o fim do socialismo, sistemas políticos e ideológicos que se posicionam em pontos extremos do viver humano e da natureza, coincide com o fim da história e o começo de uma nova história, a qual deverá retratar as novas tendências humanísticas das futuras gerações no Planeta. Ao perceber que o limite já está no seu ponto crítico criaram uma saída que resultou no chamado neoliberalismo. Uma saída ingênua, ridícula e sem consistência que tentou usar os conceitos do Estado Mínimo de forma invertida que resultou em um estado hobbesiano em lugar de um novo estado keynesiano, procurando manter intacto o princípio monopolista do capital que nasceu no estado pleno dito democrático.
Os sinais mais efetivos, e que representam evidências para aqueles que ainda insistem em um capitalismo de economia de capital, estão presentes em fatos como a quebra da ENRON, do Lehman Brothers e de outros monumentos-símbolo que representavam esteios do liberal-capitalismo. A quebra de mega empresas como as de aviação, como os bancos e algumas indústrias são os sinais de que se torna necessário uma transformação do modelo de economia de capital em vigor para que se comece a marchar na direção de um Novo Desenvolvimento e não, meramente, de um decrescimento.
Crescimento é como colocar todos os ovos em uma mesma bandeja e esperar que os CEOs não tropecem nas deficientes técnicas de Management para que não caia. Enquanto que Desenvolvimento representa o resultado da criatividade, da inovação e das práticas libertárias e holísticas disseminadas entre todos aqueles que, de forma livre, dedica suas energias em prol de objetivos comuns para que as várias organizações, inclusive os Estados, possam colocar em ação. Crescimento é apenas Fazer (Atividade), Desenvolvimento é Pensar e Fazer (Ação).
O fim das ditaduras (e, em especial, dos ditadores e líderes dominadores) representa algo realmente importante que não apenas uma mudança de regime político ou de estrutura hierárquica, mas uma mudança de conceitos, embora muitos grupos ainda guardem a esperança de, nesse embalo, recuperar os espaços estratégicos perdidos ou em fase de extinção para re-implantar os princípios ditatoriais, já agora com uma nova experiência que vai disfarçada na linguagem da propaganda e com o uso de especialistas em marketing político. Vivemos sob o fogo de duas ferrenhas e nocivas ditaduras: a ditadura do capital monopolista e a ditadura da política monopolista. Ambas têm que desaparecer e com elas deverá também desaparecer o Estado Absoluto hobbesiano.
Casos como Cuba, Coréia do Norte, China (agora em sua fase “neo-socialista" aproveitando-se dos fundamentos socioeconômicos do capitalismo em extinção, mas mantendo o poder central com um capitalismo de estado) e alguns países latino-americanos analfabeto-politicos (ou ignorantes tecnológicos) e super-dominados pelos ditadores de plantão, como: Venezuela, Bolívia, Equador e outros que estão se encaminhando na mesma direção ao aplaudirem as medíocres idéias bolivarianas (Argentina, Brasil, Peru), todos tentando fazer com que sejam ressuscitados os princípios de um socialismo estatal obsoleto.
A cotidianidade faz com que as pessoas, mesmo as que se nomeiam eruditas ou esclarecidas, a não perceberem as mudanças, sobretudo porque estas mudanças ocorrem de modo fluido e plástico (muito flexível) como ocorre com o elemento água em seu movimento e sua dinâmica em direção aos campos e ao oceano e até mesmo pelo próprio oceano. Poucos são os que percebem e sentem com certa firmeza os impactos dessas mudanças nos padrões sociais, econômicos, culturais e políticos.
A economia de capital que predominou no Planeta nos últimos trezentos anos (ou mais), começa a perder fôlego, em especial nos países que mais se projetaram no domínio e controle da ciência e tecnologia com uma revolução que mais se dedicou a destruir o ambiente vivo e o inorgânico do que promover a manutenção e a sustentabilidade dos bio-sistemas e biodiversidades.
Os apoiadores desse tipo de economia, os assessores científicos, políticos, econômicos e sociais dessas organizações de capital, não foram capazes de perceber as limitações de seus projetos e governos e como as instituições privadas ultrapassaram ou estão ultrapassando os seus limites de competência e governabilidade. A economia de capital que se constituiu utilizando-se do capital natural não renovável (como salienta Schumacher) está entrando em declínio e lhe resta pouco tempo e, em seu lugar uma economia de renda baseada em recursos renováveis, que se constrói dentro de comunidades cooperativadas, deve pouco a pouco crescer e ocupar este espaço.
Percebendo, embora um pouco tarde, que não haverá muito material natural não-renovável a ser explorado para movimentar suas usinas e suas empresas, o capitalista começa a migrar dos países desenvolvidos para aqueles que podem produzir commodities agro-naturais e ainda alguma mineral para tentar sobreviver por mais alguns anos, enquanto estuda outras formas de energia para movimentar seus negócios. De certa forma este desespero devido ao fim das commodities e minerais não renováveis foi retratado em sentido relativo no filme Avatar, quando mostra a luta entre a natureza (os naturais) e a ciência tecnológica (os artificiais).
Ambos os sistemas políticos, o capitalismo e o socialismo, primaram pela acumulação de riqueza, cada um a seu modo e segundo suas próprias regras, através da depredação da natureza e degradação do meio ambiente, além de criarem processos produtivos que denegriram os sistemas humanos tornando o Homem um ser dominado e superado pelo trabalho forçado numa espécie de escravidão sutil que nem mesmo os sindicatos perceberam bem quando se arvoraram em lutar contra o patronato.
Ambos, partidos políticos e sindicatos, procuraram impedir o avanço do trabalhador no sentido de busca de sua liberdade no momento em que impediram que se instituíssem sistemas produtivos cooperativados e autogeridos. Tais ações políticas e sindicalistas retardaram em cerca de 100 anos o desenvolvimento do Cooperativismo, com os políticos primando em incentivar o associativismo, enfatizando a importância de criação de organizações sem fins lucrativos que assumiram uma posição, logo denominada de terceiro setor, para diferenciar daqueles setores dominados pela economia de capital, sejam no ambiente agropecuário sejam no ambiente industrial.
Em alguns países intensivamente agrícolas, como o Brasil, um outro tipo de capital se desenvolveu de forma impositiva como um adendo à economia de capital natural que foi a economia de capital comercial, na qual predominou (e ainda predomina) as ações de proprietários feudo-comerciais que se originaram nas famílias agrárias provinciais, quando se romperam os laços das comunidades familiares rurais dando origem ao grande comércio da urbanização em expansão.
Estes capitalistas feudo-comerciais são, ainda hoje, os detentores do poder político no Brasil, alguns mais ativos outros mais apagados, porém ainda respirando esperanças de se promoverem a partir de apoio aos ditadores de plantão. São os responsáveis por arrebanhar ou recrutar os imbecis tecnológicos e analfabetos-políticos para as eleições dos seus líderes ou daqueles que eles esperam venham a prover condições de adquirir um novo status socioeconômico na sociedade industrial e capitalista, ainda que seja através de meios ilícitos uma vez que, para eles os fins justificam a utilizações de meios corruptos.
O declínio do capitalismo está criando uma sociedade de transição socioeconômica corrompida que se apodera do setor comercial e de serviço e, no desespero, das organizações sem fins lucrativos, para continuar vivendo a ilusão de uma economia de capital natural em extinção.
O novo discurso desse capitalismo falido está direcionado para a busca de novas fontes de energia ditas renováveis como os bio-combustiveis para continuarem se mantendo no topo do poder e da dominação, seja em ambiente neo-capitalista, seja em ambiente neo-socialista. Neste último os teóricos e intelectuais que subsidiam os donos do poder criam teorias ou princípios que vão de uma teologia da libertação a uma política para sustentar uma temática de decrescimento calcada em linguagens de defesa médio-ambiental, de sustentabilidade, de produção mais limpa, de horticulturas orgânicas, etc.
Pão, Paz e Liberdade
2012 ANO INTERNACIONAL DO COOPERATIVISMO
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